Tomar

por Paulo Antônio Pereira 

se fosse possível contar lágrimas
odiaria mais ainda os números.
a dor não se mede pelo que se derrama
mas pelo que faz parir.

nascemos de gestos intraduzíveis
passamos a vida a rascunhar livros e siglas
como as crianças traçam seus joguinhos
(de mentirinha, de mentirinha!)

chega de ter medo, chega de gesticular à toa:
é preciso fazer o sangue jorrar
como um centurião que entende bem de seu ofício.
é preciso não abafar os olhos,
é preciso partir,quebrar tudo o que me impede de sair
e te tomar nos braços como irmã muito minha.

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De como se espera a ressurreição

por Paulo Antônio Pereira

galhos-secos 2
as flores que plantei pra ti sobre minha janela
ficaram tão murchas, coitadinhas!
bastou que passasse uma semana em São Paulo
outra semana pensando
e elas se foram contorcendo como velhinhas engelhadas.
agora, são um punhado de raminhos agitados e aflitos
cravados numa lata de leite Glória, num silêncio para sempre.
daqui nunca brotarão flores! parecem dizer estes lábios de terra rachada.

mas não vou jogar fora minha primeira sementeira de flores.
elas ficam ali, não sei por quê, mas vão ficar ali:
quem pode dizer com certeza que uma coisa está morta?
se não sabemos o que é a vida!

puxa, não sei falar mais nada,
olhando para esta janela aberta e estes galhinhos tristonhos
que arranham um céu tão azul lá fora!
só posso dizer que é preciso esperar – esperar mesmo –
a ressurreição dos mortos.

Subindo

por Paulo Antônio Pereira 

moça triste da rosa amarela
eu vim de uma favela o sábado passado.
pensei em ti, barraco após barraco, ao percorrer misérias,
entre casas sórdidas e rostos sem gente.
pensei em ti, ao ver o panorama de abraços abertos da cidade,
onde o morro é um quisto intumescido.
pensei em ti, ao ver uma negrinha, suja, sujíssima
que se chamava Sônia.
pensei em ti,
ao penetrar num antro onde vegetam mulher e dois filhos.
pensei no teu rosto ao ver a parede encardida,
pensei em tua vida,
ao ver o chão duro que a dona escavara, prá chuva não entrar.
(ih! só vendo, ó seu moço, é um lodaçal que a gente não aguenta).
pensei em ti
ao ver a mulher agradecer minha visita com olhos vibrando de alegria
só porque alguém reparou ao menos uma vez que ela existia.
mas eu pensei em ti, pensei mesmo,
quando vi o jardim que a favelada plantara à volta do barraco:
eram bicos de papagaio e sempre-vivas,
mais uma cruz em frente do portão
toda enrolada em papel crepom.

foi então que eu pedi umas mudas daquela miséria prá plantar em teu nome.
estão aqui, agarradas ao quinto andar da minha janela
as flores da favela que subdesenvolvidamente hão de brotar prá ti.
será flor amarela, serão restos do mundo,
sempre-viva explosiva ou cravo de defunto?
ora, mas o que é que me importa?
se não tenho nada, se nem ao menos tiver flores
já tenho agora uma favela inteira prá te dar.

 

Fonte: Olhares do Morro
Fonte: Olhares do Morro

Da noite, da janela e do vento

por Paulo Antônio Pereira 

estas lâmpadas tristes nesta noite enormejanelaaa
espalhando gotas de luz na cidade calada
fazem-me pensar em tuas lágrimas
nas ruas por onde andamos ao sol do meio dia.

a tristeza, essa irmã gêmea do vento
ao agitar minha cortina desbotada
faz parte da respiração de tudo.

eu te vejo no negror da montanha
no vento frio, no silêncio ritual da espera.
tudo fala de ti
como se tudo tivesse sido feito exatamente para falar de ti.

talvez
porque estas lâmpadas tristes
nesta noite enorme
lembrem-me de que eu também caminhava contigo.

onde encontrar teus olhos entre tantas lágrimas
como ouvir-te entre tanto silêncio?
parece que me afoguei,
tudo ficou lá em cima, à tona d’água,
e a própria noite está para o lado de lá das estrelas.

mas quando a calma se infiltra,
quando me aprisiona na ilha vaziíssima do meu quarto
quando me obriga a desejar o sono,
ah! tenho pena de ver que te deixei sozinha
que dormi sem sonhar contigo
e que as lâmpadas já não são tuas lágrimas,
porque meus olhos se fecharam dentro do meu nada.

O girassol

por Paulo Antônio Pereira

cantar beleza é cantar coisas tranquilas
é ver o mundo com o olhar das crianças
é como se acompanhássemos o girassol,
que toma conta, cuidadosamente,
de cada flor do jardim,
girando a cabeça de cá pra lá.

cantar beleza é cantar o vento cheio de intimidade
que acaricia cada folha, as tenras e as secas,
e as faz tremer de prazer.

mas é também cantar o raio que cai, rachando o céu,
é cantar o sangue correndo, fazendo saltar lágrimas,
é cantar a sede e a fome
o vazio dos olhos e o medo negro.

cantar beleza é – de repente –
esquecer tudo de novo
e começar de novo a olhar.

girassol

Desejo

por Paulo Antônio Pereira

a calma paz de um sorriso transparente
a presença tão simples, o trabalho:
o poço, o arado, a terra, o alfanje e a colheita.
o sol, a chuva, os olhos, o trovão nervoso
o gosto de terra e o cheiro de chão quente.
a mulher que vem à porta chamar para a refeição
o queijo, o leite, a fumaça que acaricia o vento.
o silêncio, a vaca mugindo lá fora
a mulher jovem que corta uma posta de carneiro assado.
o doce cansaço de quem fez um dia todo seu,
apalpando a terra como se acaricia a mãe.

quando o sol se põe e eu chego à porta de minha cabana,
quando vejo a terra desvirginada por meus gestos,
quando sinto que amanhã tudo vai brotar de novo,
ah, que desejo imenso de ser Deus!

Vincent Van Gogh
Vincent Van Gogh