Subaquática

por Paulo Antonio Pereira

Doía ouvir, doía dizer, os ouvidos sangravam
qualquer som, doce ou ácido, lixava os tímpanos por dentro
a garganta, seca, ardia cada vez mais,
à medida que as palavras tropeçavam na dubiedade dos sentidos,
deixando exposta uma camada negra de mentira.

Os olhos, vazados,
qualquer luz queimava-os como tições:
e, mais que tudo, o intenso brilho da imagem dela.

Tudo estava lá fora, denso, misto, graxo, vasto,
tudo fazia parte daquela dor gástrica, plúmbea, informe,
que boiava no peito, sem vômito e víscera.

Será isto a implosão do ser?
Será esta a sensação de um prédio velho que desmorona?
E para onde vão os cacos vivos das paredes nuas?
Continuam pulsando isolados?
O que virá depois da dor de ser sozinho?

Depois de se dobrar a derradeira esquina do último deserto,
depois de se destilar a última lágrima,
num holocausto, queimar a última vítima,
ferir de morte a última célula?

Que força deste mundo fez cessar o afago suave?
Por onde se escoou tanto carinho,
para que remotas regiões voaram os sons de violino e celo
que esta mão produzia?
Por que seu tato embotou,
porque tão rápido nasceram grossos calos nas fibras mais sensíveis?

subaquatica

As lindas flores subaquáticas vibram,
em seu amarelo alegre, ao passar do rio.
A pequena flor amarela foi sacrificada no altar dos teus cabelos.
Os dedos que ali a pousaram crispam-se, agora, mudos:
já não fazem mais nada
não dão a Deus
nem dão adeus a ninguém.

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