A estrela decadente

por Paulo Antônio Pereira

era uma estrela medíocre, amarela,
de cintilações despenteadas.
nenhum poeta jamais cantara sua terna palidez
porque afinal de contas
a realidade insossa de sua cara vulgar
não permitia devaneios.

era uma estrela autêntica, porém.
vivia em seu cantinho de céu,
encolhida, sem nome:
pouco lhe importava que a chamasse de ômega-814.

órfã, sozinha
um caco de qualquer explosão cósmica,
dessas
que se costuma ver na vida dos grandes…

certa noite
(ela sempre vivia na noite)
quando dormitava em seu voozinho egocêntrico
(estrelas moram tão longe da realidade!)
quando sentiu a Terra lhe passar por baixo,
percebeu
que algo pequeno, miúdo, singular,
estava brotando, como flor no deserto.
algo
(e isso fez estremecer a estrelinha)
algo que poderia mudar
todo sentido de sua eterna elipse.

foi então que parou:
sentia-se refletida!
pela primeiria vez
olhavam para ela
pela primeira vez
rebrilhava no fundo,
bem no fundo dos olhos de alguém.
E esse alguém
miserável e nada como ela
era um simples jumentinho
que tinha, sob seu bafo quente,
uma criança recém-nascida.

Estrelinha

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