Subindo

por Paulo Antônio Pereira 

moça triste da rosa amarela
eu vim de uma favela o sábado passado.
pensei em ti, barraco após barraco, ao percorrer misérias,
entre casas sórdidas e rostos sem gente.
pensei em ti, ao ver o panorama de abraços abertos da cidade,
onde o morro é um quisto intumescido.
pensei em ti, ao ver uma negrinha, suja, sujíssima
que se chamava Sônia.
pensei em ti,
ao penetrar num antro onde vegetam mulher e dois filhos.
pensei no teu rosto ao ver a parede encardida,
pensei em tua vida,
ao ver o chão duro que a dona escavara, prá chuva não entrar.
(ih! só vendo, ó seu moço, é um lodaçal que a gente não aguenta).
pensei em ti
ao ver a mulher agradecer minha visita com olhos vibrando de alegria
só porque alguém reparou ao menos uma vez que ela existia.
mas eu pensei em ti, pensei mesmo,
quando vi o jardim que a favelada plantara à volta do barraco:
eram bicos de papagaio e sempre-vivas,
mais uma cruz em frente do portão
toda enrolada em papel crepom.

foi então que eu pedi umas mudas daquela miséria prá plantar em teu nome.
estão aqui, agarradas ao quinto andar da minha janela
as flores da favela que subdesenvolvidamente hão de brotar prá ti.
será flor amarela, serão restos do mundo,
sempre-viva explosiva ou cravo de defunto?
ora, mas o que é que me importa?
se não tenho nada, se nem ao menos tiver flores
já tenho agora uma favela inteira prá te dar.

 

Fonte: Olhares do Morro
Fonte: Olhares do Morro
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