Espantalhos

por Paulo Antônio Pereira 

cantei-te as dores dos dias
chorei-te as dores da noite
padre-nosso ave-marias
e canções de ninar, luar, poesias.

gesticulei ao léu como a pedir socorro
e quando fui pensar que respondias
eras tu que socorro a mim pedias,
espantalhos postados frente a frente.

e mais me endureceu o peito feito a palha
e mais roto tremeu meu velho terno
e mais frios senti meus braços tensos,
quando notei que a ti quem assim agitava
não era a dor nem nada: era o vento.

 Espantalho

Cronos

Por José Fonseca Lara

potamô gar ouk’estin enbênai tó autó (Heráclito)
não se pode pisar com o mesmo pé no mesmo rio.

rio das horas que não para nunca
na correria do devir constante
irreversível fluxo que desliza
brando e suave, no mistério das épocas.
curso do nada, invisível torrente
itinerante lar do que emergindo balouça
nas águas do tornar-se como barco sem rota…
tempo!
arrasta-me a voragem de tuas vagas
impele-me a torrente de ter curso!
mas quem constroi, quem te dirige e ordena
sou eu, que assim contemplo as águas de teu rio.

 relogio-l-prata3

“Spira-espera” (CLAUDEL)

por Paulo Antônio Pereira

Norman Mclaren

ondas espumas e vento
murmura mar quente e calmo
nasce do medo a nascente
desabre a estrada segredo.
viver passado sem braços,
viver braços sem passado?
teu fundo cheio, teu lado
gemem, gemem os espaços.

entre nós muros de carne
sangue lento, quente medo
canção escolhida a dedo
flor-perfume desta tarde.

onde o mundo vira anseio
teu seio, mulher irmã
nós nos fundimos ao meio
no volteio da manhã.

Via gente

por Paulo Antônio Pereira 

no espaço do teu segredo
aprendo a sonhar de dentro
espero, componho, invento,
a viagem: vento e medo.

você, dois braços abertos
você corrida prá mim
andorinha negra e branca
canção de flor no jardim.

você veio, muda e olhos
girassol atento e quente
onda salgada de vida
suave, suavemente.

esperar –eis meu mistério
renascer em campo certo
ouvir você bem de perto
cantigas de meu saltério.

monge, longe, sem matinas
cantigas de antigamente
renasço relva tranquila
Suave, suavemente.

que tempo que espaço e medo
se intromete por nós dois?
espero e cuido a teu lado
a data? Eu ponho depois.

hoje nos vemos e cremos
amanhã sofrer incerto
tarde-cedo, longe-perto
que importa, se nós vivemos?

andorinha-voando

Canto lento, lento canto

por Paulo Antônio Pereira 

e quando penso, denso, e danço
no espaço, no laço, no arcabouço,
ouço, comparo, paro , justaponho silêncio a silêncio.

sondo, soturno, meço o arremesso
deliberadamente a mente e o sentimento.

Vejo você, dois olhos, dois mistérios
você, espelho, corredor, estátua alada, alento.
você, litania e harmonia,
você, tranqüilo mar de espumas e segredos…

 

Balada do astronauta feito estrela

por Paulo Antônio Pereira

vai o vento, some a terra, come a cinza, corre a estrela
pó, pó, pó, pá, pá, pá,
bate, ó astronauta o pó das botas de teu uniforme
sacode as lágrimas do mundo
e fecunda a flor de plástico,
que corações transplantados a patadas
pó,pó,pó,pá,pá,pá
esperam-te aqui.

(prá que capinar lua,
se as pedras nossas que estão nos céus
são mundos adentro/mundos afora
chateados e opacos
zigzags sem zigs
zagzig sem zags?)

corre, astronauta de vidro
corre astronauta do tempo sem jeito
e se o kit eletrônico bater em teu peito
grita, grita, grita:
alô alô, vocês aí
cheguei, cheguei!
a morte é nossa
a luz, a lua , a lida
a linda linha finda.

NOTA:
Isto é para ser lido com raiva e ironia;
se a pessoa quiser chorar também, não se proíbe.

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