Amor virtuoso e amor virtual no cinema – pt3

Alphaville e Blade Runner 

O futuro do amor, para Godard e Scott

Chegamos ao ponto final, a que nos propusemos na partida : qual o futuro do amor? Que imagens do amor nos são prometidos para um futuro próximo, por Alphaville e Blade Runner?

Já vimos como Godard termina seu filme com uma declaração de amor. Afinal, ele não vê os óbices de nosso futuro na ameaça de uma ditadura intransponível. Ele acha que o amor pode desarticular qualquer ditadura da razão ou da desrazão. O amor vence tudo. Mensagem mais otimista, impossível. O amor de Godard é assim virtuoso, quer dizer, ele tem poder, virtude, para enfrentar a ditadura e a morte. Toda frieza aparente de Lemmy esconde, afinal, um apaixonado latente.

Godard soluciona a dicotomia razão x emoção apelando para a consciência. Quem usa de sua consciência tem ternura.alphaville-godard-jean-luc Ela não é um mero mecanismo de defesa da identidade pessoal, um resgate do individualismo. Ao contrário. Ela é o caminho verdadeiro para o outro: afinal, Lemmy Caution vem e volta para o mundo exterior, quer dizer, jamais se deixa levar pelo egocentrismo paranóico, pelo fechamento do eu sobre si mesmo. Parece lembrar o aforismo: não existe consciência pura: só existe consciência através de algo que não seja a própria consciência. É a filosofia do outro, que me foi carinhosamente ensinada, na década de 60, por um então jovem professor, recém-chegado da Europa. Ora, esta consciência produz amor. E é justamente este amor que abalará qualquer ditadura, de direita ou esquerda. (Indispensável a leitura do poema do livro Capital da Dor recitado por Natacha durante o filme)

Já o amor de Deckard e Rachael não pretende mudar nada do status quo vigente em Los Angeles 2023. De fato, enquanto a fonte do mal e da opressão é bem característica em Alphaville (Von Braun e seu Alpha-60), em Blade Runner, cuja própria composição, como vimos, acusa um totalitarismo não menos ubíquo, não há opressor à vista, e no entanto, tudo oprime. Por isso, os bandidos só podem ser as vítimas que se revoltam contra o sistema.
Deckard não pode mudar nada, pois não tem alavanca nem ponto de apoio para agir. Ele, sim, é um verdadeiro alphaviliano, que não pode perguntar pourquoi, apenas concluir: parce que… Ele nada sabe das causas, só tira as conseqüências.

Lemmy inverte este processo satânico. Deckard só pode afastar-se dele como de uma peste contagiosa. Lemmy oferece o amor como resposta ao problema da opressão. Deckard foge dela, sendo o amor para ele uma espécie de cápsula ou casulo de escape que abandona a nave-mãe, como o da heroína de outro filme de Scott, Aliens, o Oitavo Passageiro. Bem significativo é que, na versão do Autor, o casal termine tomando um elevador, que não se sabe para os leva.

Lemmy pensa na humanidade e se apresenta como seu libertador. Deckard preocupa-se consigo mesmo, adiando e afastando o problema. Se Rachael ultrapassará ou não o limite médio dos quatro anos de que dispõe um replicante, isto pouco importa; ele mesmo não sabe por quanto tempo seu amor sobreviverá. Mas ama, assim mesmo. Prefere um amor, ainda que virtual. Seu primeiro casamento, real, não dera certo: quem sabe se este, robótico, não será uma experiência melhor?

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Assim, podemos concluir: o futuro do amor, para Godard, confunde-se com o futuro da libertação e da superação de toda tirania. Só o amor consciente salva, isto é, indica o caminho da saída para o ser humano, pois quem amam não visa o poder, o controle sobre o outro.

Já para Ridley Scott, não importa se o amor não conseguir mudar coisa alguma: afinal este mundo não tem salvação mesmo, seu destino é o da auto-destruição. Enquanto isto não ocorrer, o amor continua como o único espaço respirável para a humanidade. Ele não traz solução para nada, mas pelo menos renova a esperança.
E Ridley Scott podia concluir com Gilberto Gil:

Quem sabe,
o Super-Homem venha nos restituir a glória,
mudando como um deus o curso da história,
por causa da mulher ?

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