Amor virtuoso e amor virtual no cinema: um estudo comparativo (pt1)

Por Paulo Antônio Pereira

Introdução

Pretendo aqui fazer uma comparação entre as formas de tratamento da temática do amor em dois filmes de science fiction: Alphaville (1965) de Godard, e Blade Runner – O Caçador de Andróides (1981), de Ridley Scott.
As razões da escolha são várias: primeiro, porque amor é assunto universal, presente em toda arte, época e estilos, estando assim inserido no âmago da criação humana. Segundo, porque desejava estudar a evolução da forma de tratamento do assunto, ou seja, a própria linguagem cinematográfica, em duas versões duplamente distintas, seja por época seja por ideologia. Por fim, a escolha de filmes de ficção científica permitiria entrever o que pensava cada diretor, na época de realização de seus filmes, sobre o futuro do tema e, pois, da humanidade, em relação a ele.
Eu queria saber : como via o europeu (francês) moderno, da década de 60, o futuro (relativamente próximo) do amor, e que diria, sobre o mesmo assunto, um pós-moderno inglês da década de 80, imerso num contexto de produção americana?

Tratando-se de ficção científica, a presença da informática e da cibernética, representada por imagens infestadas de microchips e robótica, invade a tela nos dois filmes e a ocupa inteiramente.
Como fica o amor em meio a esta rede (de informação, de controle, de cerceamentos, de…caça e pesca!) ? Ainda há lugar para ele?
Gostaria também de estudar a forma narrativa de cada filme. Conhecer as razões de suas estruturas. Que têm a ver com o ideologia que transportam em seu bojo, os intermináveis planos-seqüência de Alphaville ? E a composição tipicamente marqueteira de Blade Runner? Por que este e aquele diretor escolheu narrar seu filme assim?
Desta forma, divido meu trabalho entre as questões:
O que há de semelhante e de diferente entre os elementos narrativos dos dois filmes?
Em que coincidem e em que divergem, tanto ideologicamente, quanto em termos de linguagem?
Para que direção apontam o futuro do amor? Que imagens prefiguram para o amor, num futuro próximo ?

Semelhanças e diferenças entre Alphaville e Blade Runner

A primeira semelhança entre os filmes é óbvia: a presença da vida e da inteligência artificial, como objeto central de cada história.
Alphaville é um mundo pacífico e ordenado, mas sem escolha e, pois, sem oposição. Isto o faz imediatamente antipático e intolerável, para quem dá um mínimo conteúdo ao conceito de liberdade. A profunda depressão de Henry Dickson, primeiro espião a quem Lemmy Caution, protagonista do filme, vem substituir, evidencia a atmosfera deste mundo, em que nenhuma ternura ou manifestação de consciência é permitida.

Lemmy – Entendo. As pessoas se tornaram escravas da probabilidade.
Henry – O ideal delas aqui…em Alphaville, é uma sociedade técnica… como a dos cupins ou das formigas.
Lemmy – Não entendo.
Henry – Deve ter 150 anos-luz.
Lemmy – 150 ?
Henry – 150…200.. (Lemmy sacode a lâmpada que pende sobre ambos).
Henry – Havia artistas na sociedade de formigas… artistas, romancistas, músicos, pintores. Hoje…mais nada! (Ele dá um tapa na lâmpada acesa).lampada

Esta situação sufocante de falta de saída evidencia-se no momento da morte de Henry, ou durante o protesto inútil do homem condenado ao fuzilamento por ter sido flagrado chorando, diante da morte de sua mulher. Em Alphaville, todo sentimento deve ser extirpado, banido, considerado inaceitável, porque ilógico e imprevisível, e, pois, incontrolável. Verdadeiro crime de lesa-pátria e alta traição, merecedor de execução sumária. Em Alphaville, ou o indivíduo se adapta, ou se suicida. Não há terceira opção, apenas a morte por fuzilamento, depois da qual o corpo do criminoso é reciclado, para servir de matéria-prima geradora de energia.

A inteligência artificial de Alpha-60 opõe contraditoriamente lógica e ternura: uma não pode coexistir com a outra.

Já a inteligência artificial em Blade Runner manifesta-se totalitária e inquestionável para com os próprios robôs (denominados no filme de replicantes), dotados de consciência e sentimentos. Acontece que exatamente por atingirem um grau de semelhança humana e perfeição notável, eles não suportam viver o período de apenas quatro anos, espécie de prazo de validade que serve de controle previsto por seus construtores, para que eles não voltem contra os seres humanos os terríveis super-poderes de que são dotados. É por isso que se revoltam e abandonam seus postos, voltando a Los Angeles (do ano 2023), às vésperas do fim de suas “vidas”. Querem pedir uma nova oportunidade a seu criador, o cientista Tyrell, que os fabrica e vende como escravos de alto rendimento em várias funções : de superprostituta, como no caso de Pris; de líder de soldados, como no de Roy. Aos replicantes são atribuídas as tarefas mais árduas de policiar os extremos das galáxias e prevenir a invasão de ETs, inimigos dos terráqueos. São pura bucha de canhão, e contra isso se revoltam.roy_Blade-Runner-29

Diferentemente de Alphaville, em que o revoltoso é o “mocinho”, os replicantes de Blade Runner são considerados bandidos perigosos, que precisam ser eliminados. O herói é seu opositor, Deckard, o ex-detetive, que é chamado (de fato, é chantageado) pelo capitão da polícia (Bryand), para retomar suas antigas funções e assim manter o “sistema” de Los Angeles funcionando.

Deckart seria um herói conservador, se o amor não lhe torcesse a linha de seu (medíocre) destino e se não fosse salvo exatamente por aqueles seres a quem mais caçava com furor, o que lhe faz despertar a consciência para verdades mais profundas.

Uma segunda semelhança : em ambas histórias existe um cientista louco, responsável pelos efeitos tecnológicos que aparecem como pano de fundo das próprias condições diegéticas de cada filme : em Alphaville, Nosferatu-Von Braun, em Blade Runner, Tyrell.

Alphaville é governada pelo denominado, na época, “cérebro eletrônico” Alpha-60. Este instrumento de absoluto controle sobre a cidade fora construído por um cientista louco, que antes havia criado para os americanos o “raio da morte”. Com isto, acumulou excelente know how às custas do financiamento capitalista, mas foi expulso dos USA, certamente por insubmissão ao sistema. Quando ali trabalhava, era chamado muito significativamente de Dr. Nosferatu, cognome do vampiro-protótipo do filme expressionista de 1923 do alemão Murnau.

Já o caso de Blade Runner é mais grave: Tyrrel, o inventor de robôs quase perfeitos, idênticos aos seres humanos, justamente por isso chamados de replicantes (ou réplicas humanas), conseguiu chegar a um nível extraordinário na criação de seus “produtos”, seres de força e qualidades excepcionais, de alto QI, cuja semelhança com as pessoas normais só podia ser verificada através de complexo interrogatório do tipo “detector de mentiras”, com simultâneo exame do fundo do olho do suspeito.

Quanto ao primeiro cientista, ressalte-se que seu nome duplo é um dos aspectos cheio de dubiedade, ironia e humor negro de que o filme está repleto. De fato, Von Braun foi, na vida real, o cientista criador da bomba V-2, com que Hitler tentou arrasar a Inglaterra. Terminada a segunda grande guerra, Von Braun, como muitos outros tecnólogos e inventores ex-nazistas, imigrou para os Estados Unidos e tornou-se o pai dos foguetes que, no final da década de 60, permitiriam que o homem chegasse à lua. Passou desta forma de criminoso a herói.

Já seu homônimo no filme de Godard percorre caminho inverso. Expulso dos “mundos exteriores”, isto é, dos EUA, cria

Alphaville
Alphaville

Alpha-60 e Alphaville, passando, agora sim, a chamar-se Von Braun, o todo-poderoso. Ciência e poder estão finalmente irmanados numa só pessoa, não propriamente como sonhava Platão, mas como fruto do casamento podre entre a tecnocracia e a tirania. Seu reinado se assenta sobre o predomínio da lógica, construída a partir do princípio da eliminação de toda imprevisibilidade, isto é, do sentimento e do uso da consciência em termos pessoais (não necessariamente individualistas).

Tyrell compartilha com Von Braun a frieza do caráter. Mas o primeiro é o protótipo do ditador tecnocrata que assume o controle da sociedade e, pois, representa sua face oficial de soberania e age como se fosse uma espécie de chefe-de-estado (ele chega a declarar guerra contra os países exteriores). Já Tyrell representa o mega-empresário, que, ao controlar os direitos de produção de uma invenção agora imprescindível para a segurança de sua cidade (país?), acumula um poder especial sobre a vida e sobre a morte de todos. Não lhe interessa apenas governar a cidade, mas também aproveitar-se do poder (financeiro e de decisão) dentro dela.

De fato, como autoridade formal e oficial, mas claramente agindo à margem da lei, só aparece em Blade Runner o capitão de polícia Bryand. Ele é um tiranete que chantageia seus subordinados e tira proveito de seus desentendimentos mútuos, geralmente míseras promoções e outras pequenas benesses. Nada que lembre a luta pelos direitos dos cidadãos ou em prol do bem comum. Nada do heroísmo clássico dos xerifes do velho oeste. Apenas uma atividade de controle a serviço do capital dominante: é preciso eliminar os replicantes revoltados, que põem em perigo o sistema em vigor.

blade_runner_deckard_testing
Deckard

Ambos os filmes têm como protagonista um detetive. De fato, o primeiro, Lemmy Caution (caution, em inglês significa cautela, aviso, alerta) é mais um espião, espécie de paródia de 007 (pois sua numeração não é 003?), mas deve todo o tempo agir como um detetive, pois desconhece completamente o solo em que está pisando. Já Deckard, um ex-policial altamente treinado, é requisitado por seu ex-chefe porque o primeiro encarregado da investigação a respeito dos replicantes (Lennon) é posto fora de combate logo no início do filme.

Detetive ou espião, ambos têm de se disfarçar. Para atingir seus objetivos, precisam usar de extrema astúcia em seu trabalho, além de dominar como ninguém uma arma de fogo. Lembram os personagens marginais dos antigos films noirs.

Ambos são investidos oficialmente do poder pessoal de matar (são agentes com a sigla 00 antes de seus nomes, diria Ian Fleming). São verdadeiros carrascos de seus adversários, que não hesitam em eliminá-los, tão logo se veja frente a frente com eles.

São solitários, individualistas, e agem sem apoio ou auxílio oficial de seus comandantes. Devem “virar-se” como puderem, sem sequer dispor das armas sofisticadas sempre oferecidas a seu êmulo, James Bond, o Agente 007.
Quanto à idade, Lemmy Caution parece mais velho que Deckard. Ambos têm feições duras, atuam como legítimos “machões”, que resistem ao medo e à dor, sem pedirem socorro. Apanham muito, mas no final são eles que matam.

Lemmy Caution
Lemmy Caution

Lemmy é menos “humano” que Deckard: tem feições rígidas, uma cara quadrada à la Dick Tracy (o dos quadrinhos), de pele repleta de buracos bexigosos . Já Deckard é um homem bonito e mais atraente, mas não menos “de ferro”.
A facies de Caution é inalterável : ele não manifesta sentimentos em sua máscara imutável. Apenas num momento do filme solta uma gargalhada, diante de uma história absurda contada por sua partner, a belíssima Natacha Von Braun, vivida por Anna Karina (na época, esposa de Godard, na vida real). Ele adota esta atitude de rigidez provavelmente devido à proposta intelectual do filme, como veremos mais adiante, enquanto Blade Runner (também por uma espécie de filosofia da arte de criar cinema) nos mostra um herói mais próximo do homem comum, com interpretação à la Actor’s Studio, ou seja, de tendência stanislavskiana.

Se, no entanto, criarmos uma escala de 0 a 10 para caracterizar o grau de estilização do personagem, certamente Caution receberia a nota 9 (ou até mesmo 10), restando a Deckard um grau entre 6 e 7.

Caution é quase um personagem de história em quadrinhos… em movimento! Contraditoriamente ao efeito que ele vai causar em Alphaville (afinal ele derruba a rigidez da lógica para substituí-la pela liberdade da consciência e a espontaneidade da ternura), a figura de Lemmy é rígida, fria, o oposto mais radical ao galã clássico, atraente e mulherengo, como, por exemplo, (novamente a comparação !) o já várias vezes citado 007.

De tal forma de Lemmy emana frieza e cerebralismo que o espectador tem dificuldade para entender por que Natacha apaixona-se por ele: em nenhum momento ele a trata com ternura! Mesmo na 11a. parte do filme, que intitulei de Encontro amoroso com Natacha. Ali, suas relações com a heroína são mais simbólicas que eróticas. Não há beijo entre eles, não há sequer um abraço: apenas eles se aproximam um do outro e “posam” para a câmara em diversas posições, como um casal cuja sexualidade é eliminada ao máximo. Certamente porque, com esta interpretação brechtiana, Godard queria evitar os lugares comuns das cenas de amor hollywoodianas. (Não nos esqueçamos de que ser contra Hollywood era um dos primeiros mandamentos da nouvelle vague francesa).

Já o relacionamento amoroso de Deckard com Rachael fica mais próximo do que estamos acostumados a ver em cinema: beijo e abraço apaixonados, mas … nada além ! Nada de romantismo ingênuo, mas também nada da espontaneidade de um sexo livre e selvagem. Talvez porque um deles (ou ambos?) não seja realmente humano, mas simples replicante (ou foi o mundo do ano 2023 que os fez assim?) – vamos analisar mais tarde.

Comparando Natacha com Rachael, é preciso dizer que estamos diante de duas belíssimas mulheres. Natacha, mais

Rachel
Rachel

romântica, Rachael, mais classuda, aristocrática. Afinal, ela é o produto mais complexo já elaborado por Tyrell, que chega a apresentá-la como sua sobrinha. Provavelmente ela não tem os quatro anos de limite de vida imposto aos outros replicantes.

Natacha é também uma privilegiada, pois é filha de Von Braun, o grande poderoso de Alphaville. Mas não parece perceber este privilégio nem dele sabe tirar proveito: antes de ingênua, ela é escravizada ao extremo. Sua relação para com o pai não passa de um beijo na face, oficial e respeitoso.

E Natacha é atraída por Lemmy, exatamente porque ele representa o novo, o livre, o solto, em oposição à sua vida de animal domesticado, que traz um número de controle gravado na nuca, em situação mais humilhante que um ex-sentenciado de campo de concentração nazista, que era tatuado no ante-braço. Certamente porque o espião lhe oferece a oportunidade de experimentar a consciência, a ternura e o amor.

Rachael vai ao encontro de Deckard, inicialmente para certificar-se de que ela é replicante ou não. De certa forma, busca a consciência, a construção de uma auto-imagem autêntica, como o faz Natacha. Também como Natacha, só depois de estabelecer suas certezas é que ela se abre para o amor. É para isso que procura Deckard, vendo nele sua salvação. Daí, não hesita em atirar em Leon, quando percebe que o replicante vai espancar Deckard até à morte.

Natacha
Natacha

Ambas as heroínas têm seu rito de passagem. Natacha é um ser humano que foi robotizado. Rachel é um robô que deseja ser mulher. A primeira recupera sua condição original verdadeira (e aqui já estamos diante da primeira manifestação da virtude do amor, da força que permite a ela tomar decisões pessoais e autênticas), enquanto em Rachael o amor é apenas virtual, ou seja, é algo fruto de uma profunda complexização de seu aparato perceptivo-motor de robô replicante, mas que não passa de réplica, em última análise, de simulacro de realidade, de pura imagem refletida sobre si mesma, não propriamente uma consciência humana verdadeira. Rachael, no fundo, é fake. Mas para Deckard, isto conta pouco. Por que? Vamos ver mais adiante.

Em ambos os filmes a cidade é, antes de um lugar de ação, um espaço de transição. Seja em Alphaville seja em Los Angeles, o ar que se respira é plenamente urbano, com seus constantes deslocamentos, prédios enormes, de dimensões sobre-humanas. Mas se em Alphaville reina a ordem lógica comandada por Alpha-60 (só destruída, ao final, pela intervenção do herói, que foge com a heroína); em Blade Runner a cidade é um amontoado de gente que se acotovela pelas ruas sujas, sobre as quais desaba uma chuva ácida, fria e constante. De ambas fogem os casais amorosos, no final do filme.

Se em Alphaville a tecnologia da arquitetura e do urbanismo proclama o reinado da racionalidade, os faraônicos prédios de Los Angeles do ano 2023, em formato de pirâmides truncadas, parecem ensaiar uma espécie de vaia ao ridículo da exasperada concentração da espécie humana em poucos metros quadrados. São uma referência claríssima ao filme Metropolis, de Fritz Lang, de 1924.

A cenografia de Blade Runner é frontalmente crítica e pessimista. As explosões que irrompem por toda a cidade, logo na primeira tomada do filme, evidenciam um caos urbano impossível de ser controlado: o chão deste espaço é sujo e desumano, e mesmo o vôo rápido das naves-táxis nada mais faz que ressaltar a decadência deste amontoado de trastes e gente, de todas as origens e raças, e a poluição que domina terra e ar. Alphaville é triste porque matematicamente racional. Los Angeles 2023 é triste porque estupidamente desumana e porca.

Los Angeles - Blade Runner
Los Angeles – Blade Runner

Em ambos os filmes os heróis não lutam pelas cidades, como lugares a serem conquistados, mas fogem delas, como de espaços malditos. Espaços de pura transição, em que não há lugar para a parada, o lazer, a fruição da vida. Espaços abafados, apesar dos longos corredores de Alphaville, de suas inúmeras portas de vidro, que sugam a luz do exterior e tentam, em seu vão simbolismo, dar aos prédios um ar de liberdade. Neste ponto, Los Angeles 2023 é mais honesta: não esconde seu totalitarismo e desumanização.

Sobra para os homens (e mulheres) os espaços dos apartamentos e elevadores, mais amplos e luminosos (mas não menos frios) em Alphaville, mais entulhados e continuamente invadidos pelas luzes caóticas da cidade, em Blade Runner.

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