O que é que o que é?

(Drama estudantil moderno)

 por Paulo Antônio Pereira

– Ô Geraldo, me diga depressa: o que é “que” o que é?
-Ih!… Já vem você com suas adivinhações. Deixe eu acabar de ler o meu “Grande Sertão – Veredas”, rapaz.
-Mas Geraldo, você, lendo romance na hora da prova! Ela já vai começar, Geraldo, me diga logo as funções do “que”: só isso! Não deu tempo de estudar em casa e o Zé me disse agora, quando eu cheguei, que isso cai, Geraldo. Vai: me dê uma mãozinha.
-Ora, então porque não disse logo? (Aprumando-se) Bem, o “que” é a palavra mais social da língua portuguesa: pertence a quase todas as classes gramaticais. Já dizia Rui Barbosa…
– Ô Geraldo, quer fazer o favor de não embromar? Você abusa da ignorância da gente! Entre logo no assunto, “seu”!
– Bem, deixe-me coordenar os pensamentos.
-Como é: você sabe ou não sabe?
– Eis a síntese: o “que” pode ser substantivo. Aliás, todas as palavras, como você deve saber, podem pertencer a esta classe (pela nomenclatura antiga chamava-se categoria).
– (Impaciente) Ih!… Dê logo um exemplo! E não venha com esse negócio de Guimarães Rosa pra cima de mim, não. Eu quero é exemplo de língua portuguesa no duro!
– Sandeu! Não atribua apodos a quem não conhece! Mas em homenagem à sua subnutrida mentalidade, dê-me o jornal. É o “Penúltima Hora”? Talvez ache algo de bom nele. Hum…(remói alguma coisa, que parece ser o pensamento comprimido em abreviaturas). Ah! Veja: “…o presidente, entrevistado pelos repórteres sobre o futuro Ministério, tinha um “quê” de dúvida em suas respostas”. Viu? “Que” é substantivo.
– Mas você vai pegar logo um artigo de fundo da Marieta Anastásia, Geraldo, – que mau gosto!
-Viu? “Que” pode ser também adjetivo indefinido; você disse “que mau gosto”.
-Estou honrado por ter me escolhido como protótipo da língua. Obrigado! (Incisivo:) Toca!
– Bem…Cá está! “Que poderá fazer um governo com tal inflação? Mas eu, quando souber, blá, blá, blá…”
– Chega de política! Este “que” é pronome indefinido.adolescente
– Ótimo. Você veleja já, por próprios panos, em mar alto; gostei!
– Horrível a metáfora. Mas o cacófato é gostoso: vamos lá na carrocinha tomar um “Kibon”. (Foram-voltaram)
– Voltemos à sua particulazinha. Ele pode ser ainda: pronome relativo, advérbio, preposição, conjunção e interjeição.
– Quê!!!
– Ótimo! Você já exemplificou a interjeição exclamativa. Como pronome relativo é bastante empregado com a função de sujeito. Veja esta legenda: “Cambraia que, apesar de contundido no jogo passado pelo petardo de Citrângulo, jogará amanhã contra o América”.
– Puxa, mas que jogão! A sarrafada foi legal…
– “Uma revelação, o rapaz que Solich trouxe de Minas”… Qual é a categoria?
– Do rapaz? Era do juvenil.
– Não anódino! Da partícula!
– Ah!… Ora, mas você tem cada uma… Aqui é pronome relativo, você já não disse?
– Sim, mas que função exerce no conjunto?
– (Irritado) Zagueiro esquerdo!
– Oh! Filho de Minos! O “que” é objeto direto!!!
– Bem, mas você mistura tanto as coisas…
– Ponhamos um termo a tanto quiproquó! Como objeto indireto, regido por preposição, encontramos o “que” neste anúncio de uma companhia de seguros: “A que perigo não se expõe você pela vida afora”. Entendeu?
– Entendi…entendi que o maior perigo é receber explicações de gramática e sintaxe de você. Puxa!
“Que grande estafermo és!”– não estou xingando; não faria o crime de mudar o seu tratamento de você para tu: isso é apenas exemplo de “que” usado como advérbio de quantidade.
– Inda bem…
– Sabia? “Que” pode ser também preposição. Descobri isso lendo uma gramática noutro dia: Nesta frase – “Há pouco que fazer hoje, Otelo, dizia o estalajadeiro” – “para” está substituído pela nossa partícula. Aliás, ela pode aparecer também como simples elemento decorativo ou expletivo; é o caso deste indigente aqui da 3ª página: “desde a manhã “que” não comera nada”.
– Você ainda não falou da conjunção: não é o principal?
– Deixei no fundo do caldo o mais gostoso. Há dez tipos de conjunção “que” dos quais ajunto um, inventado por mim: a optativa – “Que sonhes comigo e não caias da cama”.
– Deixe de elocubrações de citaredo e venha à gramática.
– Conjunção integrante – com os verbos dizer, esperar e muitos outros. São principalmente esta construção e a de pronome relativo que nos fazem repetir tanto a partícula, deixando a frase cheia de cacarejos: “que”, “que”, “que”…
– Na verdade, é horrível! “Fulano me disse que você disse que ele disse que…”
– Olha aqui no seu jornal um “que” explicando uma causa: “Pode deixar, que eu me vingo – foi a ameaça do delinquente”.
– Mas, ô Geraldo, acaba logo com isso, senão quem acaba delinquente sou eu.
– “Que” concessivo: “Qualquer que seja a razão da sua malandragem…”
– Eu quero é lição de português e não de moral! Tá bom, continue.
– “Correu tanto que morreu” é o exemplo mais batido do “que” numa correlação. Há um emprego mais raro para o “que”: é o de conjunção temporal: “Acabado que foi o banquete, todos se retiraram”. Não tem um perfume lusitano?
– E “que” final? Não conheço.
– Não é raro; “Francisco telefonou-me que fosse à casa dele” (para que fosse…) Mas agora sou eu quem está com pressa. “Que” pode ser mera conjunção aditiva coordenativa. “Estude que você aprenderá bem este ponto.
– (Zangado) Mas não tive tempo!
– Não, eu dei apenas um exemplo! Bastante europeu é o “que” adversativo, tive que decorar uma frase (com pronúncia “do reino”): “Em janeiro, mete obreiro de meado em diante que não antes”.
– Puxa, você não diz nada que não seja confuso!
– Viu? Você deu um exemplo de uso condicional do “que”: que não seja confuso.
– Será que eu estou aprendendo português por osmose? (Bate o sinal.)
– Já está na hora. Té logo. Boa sorte no exame.
– Pra você também. Muito obrigado, hein! (se afastam). Ei, ô Geraldo! Está faltando um emprego do “que”: eu só contei nove; venha cá!
– (De longe) Tem razão. É substituindo “como” numa correlação. “A honra, como o vidro, é igualmente nítida que frágil”- Bernardes.
– Meu Deus! Ainda bem que consegui guardar alguma coisa! Mas por que é que foram inventar esta bendita palavra? Por que?! Por que?

(Pano rápido)

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