Rua Barcelos Domingos

por Paulo Antônio Pereira

Campo Grande, Rio de Janeiro, 1951.

Estou querendo voltar a ser menino. Parar na porta lá de casa e ver chegar os ônibus da Agronomia: desciam sem freio, escapamento aberto, cheios de marra e de gente. Era ônibus grátis. Do governo.
Paravam 3, 5, 10, bem no outro lado da rua às 6 horas da tarde, quando começava a escurecer.
E o movimento da loja de meu pai voltava a ferver.
Eu, criança, sem nenhum compromisso com aquilo, senão contemplar e ouvir o redemoinhar de gente e o barulho dos carros que lotava a calçada do lado de lá, eu me sentia dono de todo aquele movimento semicansado de fim de viagem, olhando de fora, como num espetáculo de cinema.
Era bom correr por entre os fregueses, que compravam fumo de rolo, papel de carta, partituras de músicas, vidrilho, lápis e livros. Era a “Casa Nova” (velhíssima!) que vendia de tudo, bem ao lado dos Correios e Telégrafos.
Depois, em vôo rasante, voltava para dentro, com o cuidado de não tropeçar no degrau alto, muito alto da entrada estreita que ficava entre os fundos da loja e sala de visitas.
Passava à toda por Delma, que preparava o jantar. E ia rever meu último álbum de figurinhas, o futebol de botão, ou mesmo abrir o armário para executar no violino pequeno, com voz de gata parida, valsas, minuetos, marchas, tudo antologia da primeira posição.
À noite, lá pelas oito, as portas de aço da loja eram cerradas. Gostava de me agarrar no gancho e fazê-las descer, apenas com a força do peso do corpo e travar com dois trincos.
Não. A da esquerda, não. A um palmo do chão, deixava entrever uma tira de luz,
projetada pelo poste do lampião da Light que ficava em frente. Era ali que Chamim, meu gato, adorava sentar-se, gato okesfinge atenta e calma. Como era solene aquele gato!
De vez em quando, passava o luxo de um carro ou ônibus atrasado. E tudo voltava ao silêncio ritual, Chamim esperando atento o próximo ruído.
Lá na esquina, no Café Brasil, o último a apagar as luzes, havia um mapa do Brasil, afresco medíocre, bem colorido, ainda registrando os velhos territórios que hoje são Estados. Foi lá que o José ficou horas e horas esperando pela ambulância do exército, as pernas inchadas, porque tinha pulado o muro do quartel só para ver a Ângela. Caiu de mau jeito, e tiveram que cortar o bat-boot, para tirar os pés dele lá de dentro.
A loja, toda escura, era um mundo imaginário que me separava da noite lá fora. Transição necessária para entrar em casa, um túnel, que ia da réstia de luz da porta de aço até o retângulo grande da entrada da sala, a loja sabia ficar no seu lugar: bastava escalar o degrau alto, e a escuridão deixava de existir, como se a gente estivesse abrindo os olhos de um sonho maroto.
Mas às vezes ficávamos debaixo da marquise da loja, brincando de tudo: eu sou pobre, pobre, pobre, de marré, marré de si! A coitadinha da Sílvia me deu tanta pena, quando ficou sozinha e gripada, dizendo que era viúva e que queria uma de vossas filhas! Foi um alívio para mim, que chorava só de ouvir cantar Noite Feliz, ver Sílvia por fim de braços dados com as filhas que conquistara, de tanto andar para frente e para trás, clamando sua solidão.
Foi também ótimo um dia ver o Papai Noel de papelão, lá do outro lado, na entrada de um mercadinho. A proximidade do Natal, cheirando a abacaxi, naquela primeira semana de dezembro, me deixou doidinho pela ceia do dia 25, onde papai insistia cantar, com voz trêmula mas fina e afinada, estimulada por Áurea. A gente se sentia feliz, solto, quente e seguro, apesar do verão.
Aquilo tudo parecia eterno: papai, na cabeceira, quebrando nozes e mexendo comigo; mamãe falando do presépio de papel, que tinha recortado da revista Tico-Tico. Áurea, a meu lado, zoando como sempre, pegando no pé de todo mundo, até do papai. Era a única a quem era permitido contar piada de português na sua frente. Ao lado dela estava Inês. Zita e Ângela ficavam do outro lado da mesa, e finalmente, na outra cabeceira, a figura miúda de Sílvia, a ximbica, tão miudinha como mamãe, que sentava à minha frente, à direita de papai.
Puxa, como tudo aquilo era maravilhoso! A noite não ia acabar nunca, mesmo porque, no dia seguinte Áurea ia acordar todo mundo, para ver o que Papai Noel tinha trazido para cada um de nós.
Era festa!

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