Um modo de pensar e fazer cinema

por Paulo Antônio Pereira

O cinema como processo criativo

As artes, as ciências e as tecnologias (ciências aplicadas) têm sido os espaços privilegiados para a expansão da criatividade. E foi justamente o entrecruzamento destas três áreas de atividade que fez aparecer um dos fenômenos mais significativos do século XX: o cinema.

E o que é cinema?
É arte tecnológica, indústria cultural, meio de comunicação de massa, cujo sinal é a imagem registrada em película fotográfica ou disco digital que, uma vez projetada em ritmo intermitente numa tela, em ambiente escuro, diante de uma platéia, causa no espectador a ilusão de ótica da reprodução mecânica do movimento.Imagem-do-curso-História-do-Cinema2

A explicação de cada termo desta (longa) definição comprova a origem híbrida e rica do cinema.

Cinema é arte. Arte é toda forma de expressão que pretende provocar num público (receptor) a experiência estética. Como forma de expressão, isto é, como modo de dizer e comunicar-se, a arte é a manifestação de sinais perceptíveis tantos pelos sentidos externos (em especial do tato, da visão e da audição) como pelos internos: imaginação e memória.
E arte é fenômeno comunicacional, pois quem faz arte procurar sensibilizar um público. Sem esta percepção por parte do outro, sem este atingimento e consequente provocação de resposta por parte do outro, não há possibilidade de existir arte. Pois é através deste processo de sensibilização que pode ocorrer a experiência estética, ou seja, o encontro entre o objeto artístico (expressivo, excitante, evocativo) com o sujeito sensível à vibração que tal encontro lhe proporciona.

Manoel de Oliveira -  105 anos em 2013, ainda trabalhando
Manoel de Oliveira – 105 anos em 2013, ainda filmando

Assim como a verdade é tradicionalmente definida como o encontro do sujeito com o objeto, assim também na experiência estética há um objeto que suscita estesia e um sujeito que é capaz de admirar-se com ela e saboreá-la.

Diz-se que a experiência estética consiste num encontro com o belo. Belo é tudo que suscita admiração, por constituir-se no esplendor do ser.

O ser, enquanto objeto de conhecimento, é verdadeiro; enquanto objeto de admiração, é belo. A arte, no sentido de arte de contemplação gratuita, não de arte no sentido de produzir resultados eficientes, seria assim a capacidade e o ato de exibir-se o esplendor do ser às pessoas, às platéias, ao público, procurando fazer com que estes reajam com curiosidade, admiração, aplauso, podendo chegar ao enlevamento e até mesmo ao êxtase.
É notável saber que as primeiras manifestações da imagem do movimento provocaram no público esta reação de curiosidade diante do insólito, de pasmo diante da beleza, de aplauso, pelo prazer que causavam.

Glauber Rocha durante as filmagens de "Barra Vento"
Glauber Rocha durante as filmagens de “Barra Vento”

Ora, há muitos exemplos de obras cinematográficas que permitem esta experiência artística, que ocorre simultaneamente com a vivência do lazer, do divertimento e do passatempo, também objetivos próprios do cinema.

Fruto, porém, de uma sociedade de massas como a moderna, o cinema é indústria cultural e meio de comunicação.  Indústria, porque a produção e distribuição do filme se dão em larga escala, apesar das características artesanais de cada obra cinematográfica considerada isoladamente. Indústria cultural, porque veicula valores, hábitos, posturas de um grupo, que domina todo seu processo econômico, e se utiliza dela para expandir seus próprios valores, diante dos consumidores de seus produtos.

Cinema é meio de comunicação de massa, pois é produzido por uma pequena equipe de emissores, com a finalidade de atingir, quase simultaneamente ou em pequeno espaço de tempo, milhões de receptores, integrando uma linha de consumo que caracteriza toda produção em larga escala do mundo atual. É arma ideológica, portanto, de alto poder de impacto. Daí a estima especial que sempre gozou junto a governos e sistemas totalitários, seja de esquerda seja de direita.

Esta intimidade entre beleza e produção de riqueza e de dominação é um espetáculo a que podemos assistir através da história. Época após época, as pessoas não se contentaram em relacionar-se entre si, criar sistemas de produção coletiva, trocar idéias e exercer poder umas sobre as outras. Sempre quiseram comunicar-se através de formas artísticas. Pirâmides, palácios, não só procuravam retratar a dominação como atrair admiração, por sua grandeza e proporcionalidade estéticas.

No momento em que as relações humanas tornaram-se muito complexas, urgia criar-se um sistema simbólico versátil que facilitasse a comunicação entre as pessoas, isto é, a veiculação e troca de valores e bens culturais os mais variados, principalmente de ideologias dominantes e fixação da memória de um povo. Os sons orais, visuais e instrumentais, seguidos da escrita, que fundou a civilização, foram os meios inventados para tornar a vida mais explicitamente significativa e manifestar em público, com maior definição e clareza, a vontade das pessoas que pretendiam preservar sua memória.

Humberto Mauro
Humberto Mauro

Num mundo em que o poder tem de ser exercido por e sobre milhões de pessoas, muitas delas conscientes de seus direitos, as decisões coletivas têm de ser tomadas a partir do máximo de informação que for possível coletar e disseminar.

Os meios de comunicação modernos — jornal, cinema, rádio, TV, Internet, principalmente, hoje apelidados de media eletrônica (vez que a eletrônica já é ou tende a tomar-se o suporte de todos eles), estes meios operacionalizam, na atualidade, a veiculação da ideologia dominante, junto com o esplendor, o visual charmoso, que atrai respeito e admiração, plasmando o que hoje significativamente é chamado de imagem das instituições ou das pessoas, a face com que elas se manifestam junto e dentro da sociedade. O invólucro atraente de sua própria oferta e venda.

Muitas vezes veiculadas por tais meios ou constituindo os próprios, surgem as artes modernas de reprodução em massa, entre as quais o cinema tem sido a mais rica e universal. A produção de sinais passa a ter um volume tão grande e intenso que o fenômeno torna-se verdadeira indústria cultural de largos orçamentos.

A fotografia será a primeira tecnologia visual a assumir rapidamente o porte de arte, seguida imediatamente pelo cinema, síntese de todas as artes, e logo perfilhado, em tom variado, pelo vídeo e pela televisão.

E o cinema é arte tecnológica, eis sua primeira novidade. Beleza que sai da máquina. Estesia que nasce da ciência aplicada à comunicação, destinada a platéias de grandes números, compostas por pessoas dos mais variados perfis culturais.

Tecnologia é a aplicação do conhecimento científico à solução de problemas concretos de uma sociedade. É ciência aplicada. No caso do cinema, o estudo de sua como que pré-história demonstra o quanto foi necessário acumular-se conhecimento científico, década após década, principalmente no campo da física, da química, da fisiologia. Hoje, todas as ciências humanas estão a serviço do cinema, mesmo as posteriores à sua invenção.

Toda arte tecnológica exige, na maioria das vezes, o uso de aparato, de equipamento complexo, para a produção de seu objeto. Assim, a imagem em movimento (ilusório) do cinema é obtida graças à conjunção de vários fatores objetivos (equipamento) e subjetivos (a forma como se processa a visão humana, psicológica e psicossocialmente).
E a arte do cinema, voltada para públicos mundiais, exibe em seu perfil, junto à ubiqüidade, uma  reprodutividade ad infinitum. Uma eterna presentificação do passado, como diria Sartre.

Se uma pintura renascentista só poderia ser vista por pessoas que a visitassem em seu lugar de exposição (o intercâmbio artístico de acervos é fenômeno próprio dos museus modernos), o cinema hoje pode ser exibido em qualquer parte do mundo.

Se uma sinfonia, como expressão de arte temporal, deve receber uma nova interpretação, a cada vez que é de novo executada (o mesmo acontecendo com uma peça teatral), a tecnologia de registro do cinema permite que, teoricamente, o mesmo filme seja repetido, por décadas, com a mesma identidade visual e rítmica com as quais foi concebido e exibido ao público pela primeira vez.

Dib Lutfi rodando "Terra em Transe"
Dib Lutfi rodando “Terra em Transe”

Ao assistir à TV ou a um vídeo, as pessoas não vêem apenas as imagens que o aparato veicula. Vêem tudo o que está à volta de si: pessoas, objetos, espaços reais. Ouvem ruídos que não provêm do equipamento emissor, mas do próprio meio-ambiente em que se dá a assistência ao programa ou à peça audiovisual.

Já ao participar de um espetáculo cinematográfico, tem-se a experiência da exclusividade do ver (e do ouvir). A pessoa sai de casa, paga um ingresso para entrar numa sala especializada, senta-se junto a uma platéia composta por dezenas de outras pessoas que em geral não se conhecem, mantém-se no escuro por horas, desliga-se da vida diária, interrompe todo compromisso social, com a única finalidade de ver (e ouvir) um filme, ou seja, ter uma experiência audiovisual completamente distinta daquela que se tem no dia a dia.
A exclusividade deste ato sublinha, mais uma vez, a característica de arte do cinema, vez que, se na arte a beleza é contemplada como um fim em si mesma, no cinema o ato de ver imagens torna-se absoluto e fechado sobre si mesmo.

Magia. Indústria cultural. Arte tecnológica. Mass medium. Imagem em movimento ilusório. Reflexo da vida. Cinema é tudo isso.

E neste pouco mais de um século de existência, o cinema tem transbordado criatividade, em todos os aspectos e setores que o compõem. Considerado quer pelo seu lado tecnológico (ou de ciência aplicada), quer como arte (dotado de linguagem específica) ou mesmo como uma das media modernas (formando um complexo comunicacional-administrativo), o cinema é submetido a um desafio contínuo de inovação, pelo próprio fato de ser veículo a um só tempo de diversão e de reflexão cultural.

Donald Winnicott
Donald Winnicott

É o que se lê em Luz (1), ao referir-se aos mesmos princípios que Winnicott aplica tanto à gênese da personalidade como à origem da criatividade artística: “psicanálise e cinema: dois aparelhos produtores de ficções poderosas, duas maneiras de construir e de compreender o individuo que surge do moderno modo de vida urbano e industrial, dois espelhos através dos quais o sujeito procura reconhecer¬se”.

De fato, a imagem em movimento também é espelho; pode, ao invés de anestesiar, fazer repercutir idéias, refletir sobre elas. Pode ser catártica, mas também pode ser ferramenta de mergulho, mas sempre mergulho em profundidade: batiscafo.

Continua Luz (ibid. p.237), winnicottiano: “A criança que enfileira quatro, cinco caixotes resolve fazer desse conjunto um trem, que parte dali à toda velocidade. A viagem da criança naquele trem que ela construiu possui realidade própria. O amador de arte e o artista, o crente e o cientista, dão mostras dessa espécie de loucura. É o caso também do cineasta e do espectador de cinema.” (Ibid. p. 239)

E completa: “Na medida em que é representação viva, o cinema nos convida a refletir sobre o imaginário da realidade e sobre a realidade do imaginário”.

É o “charme” da imagem, da imaginalização, como diria Morin (1958, p.15). Tanto o cineasta como seu espectador podem comungar através da imagem, porque de ambos se exige a prévia experiência da criatividade, um, como emissor, outro, como receptor.

Por isso, é tão instigante fazer cinema: evoca motivações ocultas, energias estocadas e latentes. Não só porque o cinema exige a humildade do trabalho em equipe, da complexidade da sinfonia criativa, mas também porque o próprio ato de criar pressupõe uma experiência de brinquedo (impulso e intuição) que não se choca com o planejamento racional (playing + gaming);  e a racionalidade no trabalho, bem como o espírito de equipe, não tolhe o prazer.

De fato, o perfil do cineasta verdadeiro é fruto da síntese entre sua capacidade criativa e de sua extrema receptividade à colaboração, misto de gosto pelo brincar espontâneo, com seriedade, na observância das leis das várias ciências a serem aplicadas (tecnologia) durante o ato de fazer cinema.

Fazendo cinema
h8Ora, uma das formas de se criar um filme é a Oficina de Cinema (OC). E a Oficina de Cinema, método desenvolvido no âmbito da PUC-Minas desde 1973, consiste numa experiência integral de comunicação, na qual o participante, sem que lhe seja exigido pré-requisito algum de experiência cinematográfica, é selecionado, orientado e treinado, no sentido de compor uma equipe mínima de produção cinematográfica (com seis a oito membros), dentro e junto da qual ele escolherá desempenhar função específica, participará da definição do tema e do roteiro do filme, bem como de seu planejamento de produção, filmagem e edição, terminando por exibi-lo em evento do tipo festival, para ser avaliado por um júri composto por especialistas em comunicação e cinema.

Toda a metodologia da OC é destinada a que as pessoas possam exercer uma função dentro de uma equipe, dominando conhecimentos específicos e adquirindo habilidades através do treinamento. Por ser uma Oficina, ou seja, local de trabalho, ela segue as etapas lógicas de criação do filme: planejamento, filmagem, edição. As atividades, como se viu, são gradualmente desenvolvidas, não sendo ministrado conhecimento teórico-prático que não se refira diretamente ao projeto proposto pelo participante.220px-ARRI_16_ST_Stativ,_1

Ora, tanto a metodologia como a teoria na qual se baseia a OC foi de fato acumulada e repensada dia a dia, festival após festival. A revisão contínua dos trabalhos permitiu que se mantivesse por mais de trinta anos um processo teórico-prático iniciado com pequenas filmagens despretensiosas de um rolinho só (1973), até chegar-se à produção completa de curtas metragens em 35mm (2003), com direito a projeção profissional em cinema de circuito de arte, e produções em câmara digital (2006), com exibição em festivais internacionais.

Pode-se agora explicitar os princípios teóricos que serviram de norma e condicionaram o processo didático-pedagógico de criação de filmes da OC. Eles  podem ser enunciados a partir de pontos de vista os mais variados.

O primeiro refere-se à própria experiência criativa em equipe, que deverá pedir, de quem dela participa, o máximo de envolvimento pessoal, tanto na proposição de objetivos e meios ao se conceber um projeto, como durante a execução sinérgica de todas as fases do trabalho, respeitado a função de cada um.

Outro aspecto diz respeito à concepção básica que vai fundamentar as atividades de criação no campo do cinema. Sobre isto, pode-se afirmar:
1.    Cinema é, do ponto de vista da fisiologia, imagem em movimento (ilusório), que se processa dentro do cérebro do espectador do filme.

2.    Sendo a imagem o sinal cinematográfico básico do cinema, o som constituiu-se em elemento completar daquela imagem. Em geral, um é substantivo(a imagem), outro é adjetivo (o som)

3.    O filme é feito como um processo de comunicação entre um emissor (equipe criadora) e um receptor (o espectador), sendo este último a causa final de todo processo criativo do cinema.

4. A complexidade da criação do filme leva a equipe criadora a desenvolver um verdadeiro esforço sinérgico, não sendo o filme um produto da simples somatória de elementos díspares, de tecnologias diferentes, mas uma verdadeira síntese sinfônica entre elas. O filme, qualquer que sejam as condições de produção e os resultados obtidos, é sempre criado por uma equipe e não por indivíduos isolados.

5.    A atitude de sinfonia exigida pela criação cinematográfica pede de cada participante de equipe atitudes verdadeiramente democráticas, em que o diálogo aberto será o padrão do relacionamento, sempre centrado no objetivo de produzir uma obra comum.

6.    O filme é produto social, que se insere dentro do contexto de uma produção cultural maior, a ser oferecida a um público de largas dimensões.

7.    Toda equipe cinematográfica, profissional ou não, reflete a cultura na qual está inserida e, seja explícita seja implicitamente, faz do filme como uma espécie de resposta a uma problemática pessoal: “a boca fala daquilo de que o coração está cheio” (Mateus, 12, 34).

Quanto ao papel de quem orienta os trabalhos:
imageA função do educador que propõe a um grupo a experiência de uma atividade criativa é dupla: ministrar conhecimentos teórico-práticos, permitindo assim que o participante venha a adquirir habilidades e manifestar atitudes eficazes e eficientes, e acompanhar os trabalhos, interferindo com orientações e sugestões, sempre que julgar necessário manter a coerência de propósitos da equipe.

Quanto à metodologia de ensino e treinamento de uma equipe de criação em cinema:

1. Sendo o cinema arte tecnológica e meio de comunicação especializado de produção sinfônica, é necessário, a quem se propõe a fazer um filme, assimilar conhecimentos tecnológicos e desenvolver habilidades próprias de sua função criadora, além de ter uma noção completa, ainda que não profunda, de todas as outras funções diferentes da sua.

2.    Concretamente, uma equipe cinematográfica deverá dominar conhecimentos e desenvolver habilidades nos campos da linguagem cinematográfica e da tecnologia necessária à prática da produção de filmes, em todas as suas fases: planejamento, filmagem e edição de imagem e som.

3. Para melhor assimilação, os conhecimentos específicos, bem como as habilidades próprias da função de cada participante, serão ministrados passo a passo, na seqüência em que serão utilizados na criação do filme.

*****

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Uma opinião sobre “Um modo de pensar e fazer cinema”

  1. Que pena a Oficina de Cinema não ser uma proposta que vingue em todas as faculdades de Comunicação Social em um universo acadêmico cada vez mais superficial e mercadológico, no pior sentido do termo…

    Texto muito bom!

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