2° Tipo de adaptação: de crônica para curta Projeção do filme versões – o filme (1996)

EQUIPE: Gabriela e Isabela Caixeta – Sílvia Monteiro – Alessandra Gouvêa – Ana Carolina Mafra – Beatriz Casassanta (na época, estudantes de Ensino Médio com 16/17 anos de idade).

Título do conto de Luis Fernando Veríssimo: VERSÕES.

A versão da mulher:
“Eu estava no apartamento,nuinha,uma graça,pensando com o meu umbigo – porque botão não havia, né? – que o velho de binóculo no apartamento em frente já estava passando dos limites e que se ele não parasse com aquilo eu era capaz até de fechar a janela – (onde se viu?) – quando bateram na porta, e era esse cara com uma arma deste tamanho perguntando: -Onde é que ela está?Onde é que ela esta?
Aí eu disse:Eu hein?! Mas ele nem quis ouvir,foi me empurrando e entrou no apartamento,e entrou no quarto e acordou o Samuca, coitado, que não dormia a dois dias (diz ele que tava trabalhando na campanha do Miro,mas eu acho que é outra coisa,tinha marca de dentes no pescoço,eu aguento?) O Samuca coitado,nem sabia o que estava acontecendo ,só fazia “Ahhn?hum?” e o cara gritando…
Olha eu sou muito calma,eu sou uma pessoa equilibradíssima pra me tirar do sério tem que desabar o mundo mas não aguentei e gritei:
-Qual é?Invadindo meu apartamento; qual é? – e pulei nas costas dele. Ele caiu por cima do Samuca. A cama quebrou e a arma disparou! Acertou o Samuca, coitado!

A versão do criminoso:
“Não estou satisfeito com o que aconteceu. Me excedi, reconheço. Foi um erro, pronto. Bati na porta e a moça atendeu. Perguntei se a Dalva estava.Ela disse que ali não havia Dalva nenhuma. Pedi educadamente para entrar e ver se tinha ou não. Ela disse que não podia abrir a porta porque estava nua. Eu duvidei e ela abriu a porta para mostrar que era verdade: nuinha. Eu entrei. A porta do quarto estava fechada. Eu fui na direção da porta e ela avisou “Não entra ai!” Eu entrei, pensando encontrar a Dalva, e dei com um homem armado. Brigamos,a moça pulou em cima das minhas costas, nós caímos sobre a cama,a cama quebrou,a arma desparou por acidente e ele morreu,pronto! Não pensem que eu estou orgulhoso pelo que aconteceu, mas qualquer um se engana. Olha tenho nível. Sou formado. Foi um erro!”

A versão do velho de binóculos:
“Naquele edifício acontece cada coisa! Só eu sei. Ela estava dançando,na frente da janela. Nuinha. Num ritmo selvagem. Aí de repente desapareceu. Não deu pra ver bem. Depois vi que tinha um homem na sala. Só posso imaginar o que estavam fazendo. Aí passaram para o quarto onde tinha outro homem: estavam nus. A música continuava,pulsante e embriagadora. Passavam-se óleo pelo corpo todo. Massageavam-se mutuamente, ao ritmo da música. Gemiam…Mordiam-se… Um dos homens vestiu-se de mulher e a mulher vestiu-se de homem.Rolavam os três pelo tapete claro.Não dava para ver direito. Só sei que no final ela apareceu na janela e começou a fazer sinais pra mim,os seios balançando. Parecia desesperada. Queria um terceiro homem,a despudorada! Era demais: voltei o binóculos para o terceiro andar onde as gêmeas acabavam de chegar da escola e preparavam-se para o banho”.

A versão da Dalva:
“Não sei o que aconteceu. Eu estava em casa o tempo todo. Quando ele saiu de casa e eu perguntei:
-Onde você vai?
Ele disse:
-Vou procurar você,você deve estar me enganando em algum lugar
Eu disse:
-Mas eu estou aqui!
Ele disse :
-Você não me convence! Eu sei onde procurar.
Um doido! Não sei se estava armado.Nunca vi arma dentro de casa. É verdade que fico pouco em casa…”

A versão do Samuca:
“Não sei o que aconteceu.Eu estava há dois dias sem dormir, trabalhando na campanha do Miro, juro, e tinha acabado de pegar no sono.Quando acordei estava morto.Com um tiro aqui do lado. Ai meu santo! Nunca tive arma.
Agora me deixem que eu preciso descansar.  Dois dias sem dormir!”

A versão da arma:
“Sou uma Smith & Wesson preta, calibre 38, importada, numero de série 2B-4332.
Não sei quem é meu dono e não me importo.Na ocorrência em questão,fui disparada uma vez. Nada mais tenho a declarar.”

A versão do gato:
Cherchez la femme, toujour,cherchez la femme. Cala-te boca. Ela só andava nua pela casa.Nuinha.Se já conhecia o cara,não sei. Eu nunca o tinha visto antes, mas também não saio de casa! O Samuca,coitado, era um puro. também dava as suas voltas, mas merecia, com o que tinha em casa. Deixou família em Cordovil por causa dela,veja você, há gosto pra tudo.Eu não devia falar, ela sempre me tratou muito bem. Mas tenho os meus princípios…

Não vi quem atirou e quem não atirou… Se foi ela, não sei. Eu sei que eu não fui! Deixa eu guardar minha boca pra tomar meu leitinho, mas se eu fosse o detetive, I’inspecteur, dava uma prensa nela. Ah se dava!”

A versão do telefone:
“Acho que algumas coisas precisam ser notadas.Um, o cara estava desempregado, preocupado com a desagregação do lar. Dois, o que tudo isto simboliza em matéria de dissolução moral de uma sociedade neurotizada pela ânsia do lucro e do prazer. Três,as possíveis implicações políticas. Samuca foi militante, não sei se sabem. É preciso ver o lado social da coisa. Era isto.”

A versão da samambaia:
“Que importa qual é a versão certa? O que é afinal a verdade? Não existe a verdade: existe a versão que colou.Tem sido sempre assim. Esses pequenos dramas humanos não me tocam .Eles passam e eu fico. Ah! as paixões … O único inconveniente é que ás vezes há um estrondo e eu me assusto.No mais,nem ligo.Quem é o culpado? Todos são culpados de não serem eternos. Podem me citar”.

***
Comentários
O filme é composto pelas seguintes partes:
– introdução: apresentação do personagens (exórdio “ex abrupto”);
– versão da mulher;
– versão do assassino;
– versão do velho de binóculo;
– versão do gato;
– versão do morto;
– versão da samambaia;
– nossa versão (versão da equipe de filmagem: metalinguagem).

O texto de VERÍSSIMO é bastante respeitado. Por motivo de ritmo, foram omitidas as versões da Dalva, mulher do assassino, da arma e do telefone.

Assim como há um padrão de 14 versos para um soneto, há um padrão de 10 minutos para um curta que deseja contar uma história rápida mas completa (com princípio, meio e fim).

A versão da mulher do assassino, como a da arma e a do telefone foram cortados. Sem eles, a narrativa cinematográfica ficou mais enxuta e concisa.
Também se inverteu a ordem de entrada do morto, que ficou antes apenas da samambaia, o que torna o final cada vez mais cômico e surrealista, ao juntar, em sequência, as versões do gato, do morto e da samambaia!

A parte final é uma espécie de manifestação metallnguística tramada de propósito pela equipe. Umas pularam sobre as outras, para revelar ao espectador o ambiente de bagunça e amizade que envolveu a realização de todo o filme.

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