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Expressionismo no Cinema

(Tradução do Dictionaire du Cinéma Larrouse,  por Paulo Antônio Pereira)

Pesquisa estética e temática que aparece na produção austro-alemã, entre 1913 e 1933.

Estas datas extremas procuram abarcar exemplos de uma tendência e de seus filmes, que vai desde O Estudante de Praga, realizado pelo dinamarquês Stellan Rye em 1913, interpretado por Paul Wegener, no mesmo ano em que Max Reinhard estreou no cinema, com uma tentativa sem futuro chamada Ilha dos bem-aventurados, até 1932, com Atlântida de G.W. Pabst, e 1933, com O testamento do Doutor Mabuse, de Fritz Lang, onde se refletem as singularidades do expressionismo.

É preciso dizer que não se trata de uma escola ou de um movimento consciente e teorizado.

De fato, o expressionismo vem da interrelação das pesquisas de vanguarda no teatro e em outras artes plásticas ligadas à renovação literária. Ele chega ao cinema pelo viés de uma temática esboçada pelo romantismo, que gera a angústia, o horror e o desdobramento (duplo “eu”), através de histórias e lendas de fundo germânico e judeu, como pode ser encontrado, por exemplo, nos dois Golem de Wegener (1914 e 1920) e no Fausto  de Murnau (1926).

1338569828_metropolis23É possível verificar o ressurgimento destes temas e do mesmo clima em grandes filmes como Nosferatu, o Vampiro (F.W. Murnau, 1922) ou Metrópolis (Fritz Lang, 1927). O expressionismo parece uma profecia a respeito do aparecimento do nazismo nos anos subseqüentes, com as tragédias políticas por ele gerado.

Lang, no entanto, nunca se considerou expressionista. Murnau, Pabst, Wegener, Leni (O Gabinete das Figuras de Cera, de 1924), além do romeno Lupu Pick, não foram senão por pouco tempo sensibilizados pelo expressionismo puro, do modo como o podemos definir.

Historicamente, a primeira tentativa de expressionismo na tela (O Gabinete do Doutor Caligári, de Robert Wiene de 1919), está relacionada com as pesquisas plásticas surgidas de movimentos denominados A Ponte, fundado por Kirchner em Dresden em 1905, e O Cavalo Azul, constituído em Munique em 1912 por Kandinsky, Klee e Marc.

O roteiro de Calgári dá primazia ao décor, influência direta do teatro, mas isso conduz a um impasse: o cinema não pode se submeter ao cenário de teatro, sem comprometer e até mesmo perder sua própria forma de relação com o espaço, além de sacrificar a liberdade que a câmara exige, o que ocorreu com cenários expressionistas, já desde o segundo Golem de Weneger.
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Lotte H. Eisner, por purismo, se restringe a três filmes, para ilustrar o que costumamos chamar de caligarismo. O expressionismo ultrapassou muito O Gabinete do Doutor Caligári, assim como Do amanhecer ao Meio-dia, de Karl Heinz Matin, de 1920, e O Gabinete das Figuras de Cera.

 Também permitiu que se passasse do barroco ao romantismo escandinavo de Sjöberg e Sjöstrom, então muito influentes, e ao Kammerspiel (teatro de câmara), bem como ao realismo, desde os primeiros filmes de Murnau até O Último dos Homens.

 O expressionismo propôs a sistematização da deformação das perspectivas do cenário e dos personagens, o exagero, os contrastes (principalmente os de iluminação), a gesticulação e os efeitos de máscaras e silhuetas, e até metamorfoses alegóricas portadoras de angústia e de horror.

Nem Wegener nem Murnau nem Lang se deixaram prender por tal sistematização. As carreiras de um Joe May ( O túmulo hindu, de 1921) ou de um Arthur Robison (O exibidor de Sombras, 1923) foram curtas.

A influência do expressionismo, a que a URSS por algum tempo foi susceptível, rapidamente se diluiu, mas não é exagero afirmar que traços dele podem ser encontrados nos efeitos de iluminação e de enquadramento do cinema noir norte-americano, nos filmes de Robert Siodmak, por exemplo, e em Sam Fuller ou Orson Welles.

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Expressionismo alemão em pintura

(Resumo do livro “Tudo sobre Arte”, coordenação de Stephen Farthin)

O termo “expressionismo” foi usado pela primeira vez, da maneira como entendemos hoje, em 1912, por Herwath Walden, proprietário da Der Sturm (A tempestade), uma progressista publicação de arte alemã. Os artistas expressionistas, muitos dos quais trabalhavam na Alemanha, queriam criar uma arte que confrontasse o espectador com uma visão mais direta e pessoal de seu estado de espírito. Era uma forma de arte representativa que incluía certos elementos essenciais: distorção linear, reavaliação do conceito de beleza artística, simplificação radical de detalhes e uso de cores intensas.

Os expressionistas alcançaram um elevado senso de urgência, por meio do uso das cores não naturais e formas exageradas e alongadas. (…)

Opondo-se à rigidez e à repressão da sociedade industrial moderna, artistas como Heckel estavam determinados a questionar as noções estabelecidas sobre o papel mais amplo da arte. Se existia o mal no mundo, os expressionistas pensavam que ele devia ser retratado. (…) Eles queriam distinguir-se da sociedade urbana burguesa, da qual a maioria deles se originou. Alguns levaram uma vida comunitária em áreas rurais, onde desenvolveram uma fascinação por sociedades “primitivas”, tornando-se colecionadores e imitadores da arte folclórica alemã, pois queriam reacender a força vital da arte, que acreditavam ter sido suprimida. (…)

Eles também evocaram a arte da Renascença germânica, de Dürer e Grünewald. Seus estudos lhes revelaram o poder expressivo do preto e do branco, e eles trabalharam para revigorar a técnica medieval de imprimir, utilizando uma matriz de madeira.(…)

Café Terrace on the Place du Forum, Arles, at Night, The
Café Terrace on the Place du Forum, Arles, at Night, The

O trabalho de Vincent Van Gogh e Edvard Munch também influenciou os expressionistas. Em busca de algo mais profundo, um mundo que o filósofo Friederich Nietzsche descreveu como “abundante em beleza, estranheza, dúvida, horror e divindade”, estes pintores se afastaram da forma convencional e rejeitaram a imitação cuidadosa da natureza.

No início da década de 1900, E.L.Kirchner, um estudante de arquitetura de arte em Munique, visitou uma exposição de pintura alemã contemporânea. Profundamente decepcionado, considerou tudo como “borrões sem sangue e sem vida”. (…) Isso ajudou a convencê-lo a agir, e, de volta a Dresdem em 1905, formou um grupo de artistas com três colegas de faculdade que compartilhavam o seu amor pela pintura: Erich Hekel, Karl S.Rottluff e Fritz Bleyl.

Seguindo a sugestão de Ruttluff, autodenominaram seu movimento de A Ponte (Die Brükhe), ecoando a noção de Nietzsche de que a vida, para a humanidade, não era um fim em si mesma, mas uma ponte para um mundo melhor. (…)

Embora os primeiros trabalhos dos artistas do Die Brüke tenham-se valido da influência de Van Gogh e do pós-impressionismo em geral, nos anos de 1905 a1908 eles se moveram em direção a um estilo expressionista bem distinto e autêntico.

Adotando cores brilhantes e vivas, os artistas pintaram em empastelamento, com pinceladas rápidas e explosivas, para criar o efeito do trêmulo. (…)

No sul da Alemanha, um grupo diferente de pintores juntou-se ao redor de Kandinsky, um advogado russo que se tornou pintor, mudando para Munique em 1896. (…)

o-cavalo-azulA partir de 1911, Kandinsky e Marc colaboraram na criação de um almanaque de artes denominado Der Blaue Reiter (O Cavalo Azul). Eles audaciosamente colocaram reproduções de trabalhos de alguns dos mais importantes artistas contemporâneos europeus ao lado de pinturas feitas por crianças com debilidade mental.(…)

O expressionismo alemão alcançou seu apogeu com o Der Blaue Reiter e, embora o grupo tenha se dissolvido com o início da Primeira Guerra Mundial, a arte expressionista se espalhou pela Alemanha, após o fim do conflito. Quando os nazistas chegaram ao poder em 1933, eles reprimiram a arte expressionista, juntamente com outras vanguardas que consideravam “degeneradas”.  A partir dos meados da década de 30, o expressionismo influenciou muitos jovens americanos, com o êxodo de vários artistas europeus para os Estados Unidos.