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Voo Noturno

Romance de Antoine de Saint-Exupéry

Voo Nortuno
Voo Nortuno

Enredo

É uma prova de fogo para a audácia de Rivière o vôo tríplice que traz do Paraguai, do Chile e da Patagônia a correspondência destinada à Europa, via Buenos Aires. Para o Correio, rapidez e pontualidade são de primeira importância. Precisa-se voar até durante a noite, nos aviões de papel da década de 1930.

Piloto do vôo noturno Patagônia-Buenos Aires, Fabien é mero instrumento de Rivière, o homem de ferro que comanda a primeira empresa de Correio Aéreo Francês.

São personagens contrastantes: Rivière, cheio de cuidados e dureza, Robineau em sua mediocridade de autômato. E Fabien, o herói do romance.

A amizade que Robineau tenta travar com o piloto Pellerin é proibida por Rivière. Tudo é contraponto para o solitário e gélido vôo noturno de Fabien. Tudo parece opor-se a que ele consiga chegar a seu destino, mas é preciso que o Correio prossiga até à Europa!

A espera

Começa o drama e o suspense: não há tempo bom em nenhuma cidade, e é preciso prosseguir, o turbilhão já envolve Fabien.

À espera dele, sua esposa e seu chefe, Rivière. Ambos vão lentamente perdendo as esperanças de rever o piloto. No fim, já se aceita a desgraça, e a luz gradualmente se apaga, como a dos olhos de quem vai adormecendo.

“Então alguém faz notar: ‘Uma hora e quarenta. Último limite da gasolina: é impossível que voem ainda.” E a paz desceu.

Mas o Correio Noturno é teimoso: “dentro de um minuto (outr)o avião sobrevoará Buenos Aires e Rivière, que volta à luta, quer ouvi-lo. Quer ouvi-lo nascer, troar e desvanescer- se como o passo formidável de um exército em marcha nas estrelas.”

Comentário

O tema do romance é o da superação do homem, da sua descentralização do egoísmo em direção a algo transcendental. Exupéry não pensa em atingir Deus: pára na realidade dos deveres e encargos humanos.

“Apesar da vida humana não ter preço, agimos sempre como se qualquer coisa fosse mais valiosa do que ela…Mas o quê?”

“Talvez exista algo mais duradouro, que é preciso salvar; será para salvar esta parte do homem que Rivière trabalha? Doutro modo a ação não se justifica.”

 Rivière

O que expressa muito bem o drama da brutalidade de Rivière, ao exigir a vida de seus colaboradores para o triunfo do Correio Noturno, é aquele trecho:

“Uma vez, junto duma ponte em construção, debruçados sobre um ferido, um engenheiro dissera a Rivière: ‘Valerá esta ponte o preço dum rosto esmagado?’ Nem um só camponês teria aceito, para economizar um desvio pela ponte seguinte, a mutilação medonha deste rosto. E no entanto, constroem-se pontes.”

Todo o livro está sombreado pelo perfil de Rivière, o mestre e construtor de heróis.

“O regulamento, pensava Rivière, assemelhava-se aos ritos de uma religião, que parecem absurdos, mas moldam os homens.”

“Os burgueses das pequenas cidades passeiam à noite à roda do coreto da praça e Rivière pensava:’Justo ou injusto para eles, é coisa sem sentido: essa gente não existe.’”

“Ele considerava o homem como cera virgem que é preciso amassar. Tornava-se necessário dar uma alma a esta matéria, criar-lhe uma vontade. Não pensava em escravizá-los com essa severidade, mas sim libertá-los de si próprios. Ao castigar qualquer atraso, cometia um ato de injustiça mas fazia convergir a vontade de cada escala para a partida, era ele quem criava esta vontade. Não consentindo que os homens se regozijassem com um tempo fechado, que representava um convite ao descanso, obrigava-os a esperar impacientemente pela abertura, e essa espera humilhava secretamente até o mais obscuro dos operários. Estava-se assim atento ao primeiro defeito na armadura. ‘Aberta ao norte, partida!’ Graças a Rivière, numa área de quinze mil quilômetros, o culto do Correio tinha a primazia sobre tudo.”

Rivière dizia às vezes: “Estes homens são felizes porque gostam do seu trabalho e se gostam dele é porque sou severo.”

Talvez fizesse sofrer os homens mas também proporcionava-lhes grandes alegrias: ’É preciso encaminhá-los, pensava, para uma vida rude; que traz dores e alegrias, mas que é a única coisa que conta.’”

 Outra ótima descrição da liderança e tenacidade de Rivière:

“Quando Rivière entrou no escritório de Buenos Aires, os secretários dormitavam. Ele não tirara o sobretudo nem o chapéu, lembrava um eterno viajante e passava quase desapercebido; a sua pequena estatura deslocava pouco ar e os seus cabelos grisalhos e o vestuário anônimo adaptavam-se a todos os cenários. E contudo, uma onde de zelo animou os homens. Os secretários agitaram-se, o chefe de seção examinou rapidamente os últimos papeis, as máquinas de escrever tilintaram.”

“Rivière costumava asseverar: ‘Se as insônias de um músico fazem criar obras belas, são belas insônias.”

E depois de ter mandado Robineau castigar o piloto Pellerin, só por causa da amizade nascente entre os dois:

“Faça como se compreendesse, Robineau. Ame aqueles em quem mandar, mas sem lhes dizer que os ama.”

Resultado: “Novamente, cheio de zelo, Robineau faria limpar eixos de hélice.”

A figura de Rivière pode parecer brutal, mecânica, pragmática, ao primeiro encontro. Mas logo vemos que ele é um homem do dever, que sacrifica o coração próprio e o alheio, a fim de que o Correio Aéreo atinja sua meta. Rivière é um homem de conquista.

“Rivière pensou: ‘Não é este homem / um velho empregado, mísero cargo de servente/ que eu despedi assim, brutalmente, é o mal do qual ele talvez não seja responsável, mas que passava por ele.’”

O drama de Rivière: “Amar, amar somente, é um beco sem saída.” (Ele entendia o amor como tolerância e piedade).

“Rivière teve a visão de um dever mais forte do que o de amar. Ou tratasse igualmente duma ternura, mas tão diferente das outras. Voltou-lhe à mente uma frase:’Trata-se de torná-los eternos.’ Onde teria lido isso? ‘O que buscamos vai morrendo conosco.’ Lembrou-se de um templo erguido em honra ao deus do sol pelos antigos incas do Peru. Pedras erguidas ao céu em plena montanha. Que restaria, se elas não existissem, de uma civilização poderosa que pesava, como toda a carga de suas pedras, sobre o homem em nossos dias, como um remorso?’ O condutor dos povos de outrora, se não sentiu piedade pelo sofrimento do homem, sentiu uma imensa piedade pela morte.”

Rivière é apresentado como um lutador:

“A chegada dos aviões não representaria nunca a vitória que termina uma guerra e abre uma era de paz bem-venturada. Como se realmente se pudesse ter tempo um dia, como se se ganhasse, ao cabo da vida, aquela paz que imaginamos. Mas a paz não existe. Talvez não haja vitória. Não existe uma chegada definitiva de todos os correios.”

Rivière é o homem inesmagável. Parece um monstro insensível, mas um monstro ferido, quando, logo após o desaparecimento de Fabien, tem forças para voltar à realidade:

“-Robineau! – Sr. Rivière? – O senhor redigirá uma ordem. Os pilotos ficam proibidos de ultrapassar mil e novecentas rotações: estão a dar-me cabo dos motores.”

 E Exupéry coroa assim Rivière, o homem do Vôo Noturno:

“E Rivière, em passos lentos, volta a seu trabalho, no meio dos secretários, que seu olhar duro faz curvar. Rivière, o Grande, Rivière, o Vitorioso, carregando sua pesada vitória.”

Antoine de Saint-Exupéry
Antoine de Saint-Exupéry

Outros personagens

São eles: Fabien; Pellerin, outro piloto, seu companheiro; Robineau, o fiscal medíocre; a mulher de Fabien, parte “egoísta” do drama.

Fabien é o herói que Rivière criou, o templo que Rivière ergueu e que terminará tragado pelas estrelas. É o contraste entre a vida comum dos homens e a aventura do avião. Fabien, voador orgulhoso, sentia falta da terra dos homens.

“Ao descer sobre San Julien com o motor au ralenti, Fabien sentiu-se cansado. Crescia ao seu encontro tudo o que torna agradável a vida dos homens: as suas casas, os seus pequenos cafés, as árvores das suas avenidas. Fabien sentia-se como um conquistador após suas conquistas que, ao debruçar–se sobre as terras de seu império, descobrisse a felicidade dos homens. Precisava depor as armas, sentir o seu próprio peso, o seu esgotamento, porque às vezes até as nossas misérias nos fazem ricos. Precisava ainda sentir-se um homem simples, contemplando da sua janela uma paisagem para sempre imutável. Teria aceito aquela minúscula aldeia: após havermos escolhido, contentamo-nos com o acaso que governa a nossa existência e podemos amá-lo. Limita-nos como o amor. Fabien desejaria viver muito tempo neste lugar, desfrutando a sua pequena parcela de eternidade, pois as cidadezinhas onde ficava uma hora e os seus jardins cercados por velhos muros, que ele cruzava, pareciam-lhe eternos, porque perduravam fora dele. E a aldeia crescia ao encontro da tripulação e abria-se-lhe. E Fabien sonhava com amizades, com a suavidade das moças, com a intimidade criada por toalhas brancas, com tudo o que lentamente o nosso coração vai conservando para todo o sempre. As asas quase roçavam a aldeia, que corria, desvendando o mistério dos seus jardins encerrados nos muros . Mas tendo aterrado, Fabien compreendeu que vira apenas o lento arrastar dum punhado de homens no meio das suas pedras. A esta aldeia bastava-lhe a imortalidade para garantir o segredo das suas paixões e para negar-lhe, a ele, a sua suavidade: se quisesse conquistar, teria de renunciar à ação.”

Um outro piloto, companheiro de Fabien, é Pellerin; Saint-Ex o descreve com os mesmos traços heróicos.

“Então, o que é que você espera para descer /do avião/? Entregue a algum misterioso trabalho, o piloto não se dignou responder. Provavelmente escutava ainda o ruído do vôo que o traspassava. Abanava lentamente a cabeça e, inclinado para a frente, manipulava não se sabia o quê. Por fim, voltou-se aos chefes e aos camaradas, e olhou-os gravemente, como se fossem propriedade sua. Parecia estar a contá-los, a medi-los, a pesá-los e pensava que, sem dúvida, representavam o seu prêmio, assim como aquele hangar em festa, aquele cimento firme e, mais longe, aquela cidade com o seu bulício, as suas mulheres e o seu calor. Segurava aquele povo como suas mãos fortes, como súditos, pois poderia tocar-lhes, ouvi-los, insultá-los. Pensou primeiro em insultá-los por estarem ali, tão sossegados, sem receios pelas suas próprias vidas, gozando o luar. Mas foi generoso: ‘Vão pagar-me uma bebida!’”

O contraste entre Rivière e os pilotos é o medíocre Robineau.

“Rivière, dizia dele: ‘Não é muito inteligente, por isso mesmo presta esplêndidos serviços.’ Um regulamento fixado por Rivière representava para este o conhecimento dos homens; para Robineau, porém, só existia a consciência do regulamento.”

“- Não podemos pagar-lhes o prêmio

– Mas, Sr. Robineau, às cinco e trinta não se distinguia nada a dez metros de distância!

– É o regulamento.

– Mas, Sr. Robineau, nós não podemos varrer o nevoeiro!

E Robineau entrincheirava-se no seu mistério. Ele fazia parte da direção. Entre aqueles paus-mandados, ele era o único que sabia que, infligindo castigo aos homens, se consegue melhorar o tempo.”

“Gostaria de salvar a companhia de qualquer perigo grave. Mas a companhia não corria perigo algum.Não tinha salvo até aquela data senão um eixo de hélice mordido pela ferrugem. Passara letamente o dedo, com ar fúnebre, por cima desta ferrugem, perante um chefe de aeroporto que aliás lhe respondeu: ‘Dirija-se à escala precedente; este avião acaba de chegar de lá.’ Robineau duvidava de seu próprio papel”.

Fora também a ele por pudor que Pellerin perguntara:

“-Gosta de geologia?

-É a minha paixão.

Na sua vida, só as pedras tinham sido suaves para ele.”

 Sua impotência se completa quando Fabien desaparece no ar:

“’Sr. Diretor, eu pensei… podia-se talvez tentar… ‘ Não tinha nada a propor, mas testemunhava assim sua boa vontade. Gostaria tanto de encontrar uma solução e procurava-a como quem procura a chave de uma charada. Encontrava sempre soluções que Rivière nunca escutava.’Você percebe, Robineau, na vida não há soluções. Há forças em movimento: é preciso criá-las e as soluções sobrevêem.’ Por isso Robineau limitava o seu papel à criação de uma força em movimento que impedia a ferrugem de atacar os eixos de hélice.”

Quem faz o último contraste com Rivière e seus pilotos (a heroicidade, o eterno) é uma mulher (a fraqueza, a carne).

“A mulher contemplava estes braços fortes /do piloto da linha Buenos Aires-Dacar/ que dentro de uma hora teriam sob sua guarda o destino do Correio da Europa, responsáveis por algo de grandioso, assim como a sorte de uma cidade. Essa idéia perturbou-a. Este homem, entre milhões de semelhantes, era o único que estava pronto para o estranho sacrifício.”

“Ela contemplava-o. Fazia ela própria desaparecer um último defeito na armadura, agora tudo ajustava bem.

‘- Você está bonito.’ Depois, viu-o pentear-se com esmero.’- É em honra das estrelas?- É para não me achar velho. – Tenho ciúmes…’

Ele riu-se mais uma vez beijou-a, apertou-a contra o seu vestuário grosso. Depois, estendeu os braços, levantou-a, como se fosse uma criança e, rindo-se sempre, deitou-a: ‘Dorme!’ E fechando a porta atrás de si deu na rua, por entre a massa desconhecida dos noctâmbulos, o primeiro passo da sua conquista. Ela ficou ali, olhando tristemente as flores, os livros, toda aquela suavidade que para ele representava apenas um fundo marinho.”

O encontro dramático entre Rivière e a mulher de Fabien:

“Era certo que aquela mulher falava / não há diálogo de fato entre os dois/ em nome de um mundo absoluto e dos seus deveres e dos seus direitos. O mundo de uma claridade de candeeiro sobre a mesa, à noite, a carne que reclama sua carne, uma pátria de esperanças, de ternuras, de recordações. Exigia o que lhe pertencia e tinha razão. Ele, Rivière, também tinha razão, mas nada podia opor à verdade daquela mulher. À luz dum humilde candeeiro doméstico, a sua própria verdade revelava-se inexprimível e desumana.”

Descrições e metáforas

A paisagem das coisas é mero pretexto para se fazer uma filosofia do homem.

“Na tarde dourada, já as colinas, sob o avião, iam cavando o seu rasto de sombra. Os campos tornavam-se luminosos, duma luminosidade perene: naquelas regiões, os campos não cessam de espalhar o seu ouro, assim como no inverno não findam a sua apoteose de neve.”

“Mas o radiotelegrafista pressentia que as tempestades se haviam escondido em algum lugar, como os vermes se escondem nos frutos: a noite seria bela, mas estragada; repugnava-lhe entrar naquela escuridão prestes a apodrecer.”

“E agora, no coração da noite, como um vigia, Fabien descobre que a noite mostra o homem: aqueles pelos, aquelas luzes, aquela inquietação. Esta simples estrela na escuridão: o isolamento duma casa. Uma estrela que se apaga: é um lar que se fecha no seu amor… ou no meu tédio. Os camponeses crêem que a luz de seu lampião ilumina apenas a mesa humilde, mas a oitenta quilômetros de distância, alguém já distinguiu o apelo desta luz, como se aqueles homens a balouçassem, desesperados, numa ilha deserta, em frente ao mar.”

“Sentiu-se aborrecido, prevendo uma noite difícil: terreno ganho que é preciso devolver. Não compreendia a tática do piloto, parecia-lhe que se iria chocar mais longe com a espessura da noite, como se fosse num muro.”

Saint-Ex cria ambiente. Como quando Rivière vai à noite ver como estão as coisas no escritório.

“O secretário de guarda levantava o fone e a angústia visível se acalmava: entabulava-se uma doce conversa, num canto de sombra…Rivière pensava nos telegramas que previnem as famílias em volta do candeeiro à noite. E em seguida a desgraça que, durante segundos quase eternos, conserva o seu segredo no rosto do pai. Vaga que primeiramente é fraca, tão longe do grito lançado, tão calma. E, de cada vez, Rivière ouvia o seu eco amortecido naquelas campainhas discretas. E, de cada vez os movimentos do empregado, que a solidão tornava lento como um nadador entre duas águas, voltando da sombra para junto de seu candeeiro, como um mergulhador que volta à superfície, pareciam-lhe carregados de mistérios.”

“Sacrificava assim a altitude como quem arrisca uma fortuna.”

“Fabien via a aurora como uma praia de areias douradas onde encalhariam depois desta terrível noite.”

E quando a mulher de Fabien aparece no escritório:

“Os elementos afetivos do drama começavam a tomar forma. Pensou primeiramente em afastá-los: as mães e as mulheres não têm entrada nas salas de operação.”

“E foi num momento destes que sobre sua cabeça brilharam, num rasgão da tempestade, como uma isca morta e no fundo de uma armadilha, algumas estrelas. Ele pensou de fato que era uma cilada: Vêem-se três num buraco, sobe-se ao seu encontro, depois já não se pode mais descer e lá se fica, mordendo as estrelas. Mas sua fome de luz era tal, que Fabien subiu.”

“’Belo demais’ – pensava Fabien. Vagueava no meio das estrelas amontoadas como um tesouro, num mundo onde nada mais, absolutamente nada mais, a não ser ele e o seu companheiro, tinha vida. Semelhantes a estes ladrões das cidades fabulosas enclausurados na sala dos tesouros, donde nunca mais conseguirão sair. Por entre pedrarias gélidas, Fabien e o companheiro vagueiam, imensamente ricos, mas condenados.”

“Fabien vagueia por cima do esplendor dum mar de nuvens, à noite; porém, mais abaixo, é a eternidade. Está perdido no meio de constelações onde só ele habita. Aperta ainda o mundo com as mão e embala-o contra o peito. Segura, no seu volante, o peso da riqueza humana e carrega, desesperado, duma estrela para outra, o inútil tesouro, que terá de devolver à força.”

Considerações

Comparando com “Correio Sul”, encontra-se menos figuras poéticas em “Vôo Noturno”. No primeiro, era um canto de tristeza que se entoava, o avião era uma paisagem, um pano de fundo. Aqui o piloto é, com seu aparelho, um único herói. As figuras delicadas são mais raras, porque não se trata tanto do amor, quanto do dever.

Saint-Ex. é sempre original. Seu estilo, cheio de comparações e metáforas, é, no entanto, direto e psicológico.

“Continuava a debruçar-se. Respirava profundamente, como faria antes de se deitar, nu, ao mar.”

“Você nem sequer está triste. Vai partir por quanto tempo? Oito, dez dias. Não estava, é certo, triste não. Mas por quê?Campos, cidades, montanhas…Tinha a impressão de partir, livre de entraves, para conquistá-los. Também sabia que dentro de uma hora já teria possuído e abandonado Buenos Aires. Sorriu.”

Seu diálogo é curto. Um diálogo não de vozes, mas de coisas, de homens, de mundos.

Você não gosta de sua casa? – Gosto de minha casa. Mas a mulher notava que ele já estava a caminho. Estes ombros largos já pesavam contra o céu. Mostrou-lho(o céu).-Você tem tempo lindíssimo. O seu caminho está juncado de estrelas. Ele riu: – De fato…”

O ritmo de Exupéry nunca decai. E atinge seu auge diante da morte. A linguagem ora é rápida, ora calma, ora descritiva e sempre poética e humana. O estilo, na descrição, jamais se prende à idéia ou à forma. Nada é pré-fabricado, forçado. Ele consegue isto pensando antes no homem e em sua situação, antes de descrevê-los. Antes de contar o que se vê, ver e sentir o que se conta.

Técnica

“Vôo Noturno” é superior em técnica a “Courrier Sud”. Talvez seja o melhor romance dos dois. O modo com que ele joga com o drama, a apresentação do desespero, desde o início, por aquele “a noite seria bela, mas estragada, repugnava-lhe entrar naquela escuridão prestes a apodrecer”, passa-nos magistralmente a angústia do piloto. Tem-se, paradoxalmente esperança e certeza em relação à morte de Fabien.

Estrutura

  1. O romance começa com a descrição do avião de Fabien em pleno no vôo. Apresenta suas reflexões: a atração da terra, do que é, contrastando piloto com o vôo, tema de todo o livro.
  2. Rivière: o amor contra o dever.
  3. Pellerin, um outro Fabien: a tempestade.
  4. Rivière aperta Robineau, o inspetor medíocre, primeiro contraste humano com três grandes: Fabien, Pellerin e Rivière.
  5. Robineau procura um amigo (mesmo com os medíocres Saint-Ex é humano).
  6. Rivière chama Robineau, manda que castigue Pellerin, à toa. Robineau e sua coleção de pedras.
  7. Fabien no ar, primeiras dificuldades.
  8. Rivière e o secretário de plantão: o general e o sargento unidos na mesma trincheira.
  9. Rivière e os castigos: “Il faut!”
  10. A mulher do piloto, mais um contraste: o amor da mulher e o dever de estar no céu. O piloto não pode fixar-se a nada: o Correio o leva para todos os mundos, mais que ele, ao Correio. “E nunca há uma chegada definitiva de todos os correios”.

A despedida da noiva ou da namorada, que se amou até há pouco. Agora é o dever.

  1. Rivière aperta o piloto: Por que sou duro com eles? “Arranco-os do medo”.
  2. O Correio da Patagônia (Fabien e seu radioperador) quer voltar e não consegue: começa o drama.
  3. Contraste: os outros Correios vão bem, do Chile e do Paraguai. Tudo se concentra em Fabien, que voa da Patagônia para Buenos Aires. Rivière não cede: o vôo noturno tem de continuar.
  1. A mulher de Fabien. O drama cresce em intensidade. Este capítulo continua o 10º, como o 8 ao 7 .

Por que sacrificar os homens? A que deus? “Trata-se de torná-los eternos!” – pensa Rivière.

  1. Esperança vã do piloto; o telegrafista só lhe dá más notícias. A tempestade açoita o avião. A

escuridão. A estrela. O homem que sobe para a estrela.

  1. A claridade – um descanso, mas um descanso amargo: “Por entre pedrarias gélidas, Fabien e     o companheiro vagueiam imensamente ricos, mas condenados.”

15 e 16 são capítulos em que a descrição atinge o auge da perfeição, do simbolismo e da

dramaticidade.

  1. Em terra, os telegrafistas: contraste desesperador.

18.“E Rivière medita. Já não em esperança: aquela tripulação perder-se-á em qualquer ponto,

na noite. ”“Rivière sabe como a mulher de Fabien é inquieta e terna: aquele amor foi-lhe      

apenas emprestado, como um brinquedo a uma criança pobre.”

  1. Robineau, o imprestável. A mulher de Fabien : tudo são réquiens.
  2. Últimas notícias: “E a paz desceu”.
  3.      Robineau, o impotente. Rivière não se rende: o resto do Correio seguirá para Europa.
  4. O Correio de Assunção está intato. O piloto com raiva pela insensibilidade de Rivière.
  5. Canto final ao vitorioso Rivière. A linha do vôo noturno não se partiu. Os homens continuam grandes, graças a Rivière…

Dois quadros compostos por Roger Messier sintetizam o livro:

  1. O que permite o avião: passar do instintivo e do humano ao eterno. Da poeira às estrelas, mas para isso é preciso buscar a ultrapassagem (dépassement) , abandonando a satisfação (satisfaction).

 

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VI VICTA VOX

por Paulo Antônio Pereira

 Milão e Clódio, senadores romanos riquíssimos, eram inimigos mortais. Clódio queria implantar uma ditadura em Roma. Milão era a favor da república. Juraram-se de morte mutuamente.

Milão armou uma emboscada para Clódio, antes que este o matasse. Foi acusado de homicídio e chamou para defendê-lo o famoso orador, advogado e também senador romano Marco Túlio Cícero (* 106 a.C, +43 a.C.).

O texto abaixo é uma espécie de reportagem, que tenta reproduzir o local (o Forum Romano) em que foi realizado o julgamento de Milão.

Como não podia apelar para o princípio da legímita defesa, pois Milão mandara matar Clódio com premeditação, e não durante um ato de agressão por parte do adversário, Cícero usa de um argumento singular: vi victa vis, isto é, o que tinha acontecido é que a violência (vis) tinha sido vencida (victa est) pela violência (vi). Por esta razão, seria justo que Milão matasse Clódio, já que este prometera matá-lo tão logo tivesse oportunidade. Isto diz o texto que possuímos atualmente.

Sabe-se, contudo, que a multidão não estava a favor de Milão, o que inibiu a palavra do Orador, cuja voz (vox) terminou vencida (victa) pela violência (vi).

 Vi victa vox
Texto original de Paulo Antônio Pereira 

 Si, cum magna comitia calarentur et congregarentur iudicia, Forum Romanum turba multa et rumorosa erat plenum, plenissimum atque refertissimum sane inventum erat, cum facinus Titi Anii Milonis iudicabatur.Tempus difficile erat in Urbe, quotidie clodianis turbata, quia omnia audebant um ducem suum a Milone occisum via in Apia ulcisci valerent.

Equidem valde inhospita erat multitudo in conspectu iudicium, cum e rostris Cícero vocem sustulit ut Milonem defenderet.

A tribus enim rebus iudicium illud pendebat: a Popeio, praeprimis dictaturam cupienti, cui damnatio Milonis, reipublicae semper propugnatoris, proderat; a clodianis vero iratis ac certissime armatis; ab amicitia denique Ciceronis erga Milonem, qui conatus erat ut Orator, et patria iussu Clodii pulsus domui e propinquis suis redderetur.

Iam Ciceronis temporibus, Forum Romanum non nimis magna erat platea: longa centum tantum passus et quinquagita lata, multis aedibus, templis tabernisque cincta, ita ut e Rostris Cícero ad sinistram videret Basilicam Aemilianam, Curiam Senatoriam atque Carcerem Mamertinum; ad dexteram vero, plures argentarias tabernas et Templum Castoris Pollucisque.

Post populum, coram Oratore, in orientali plaetae parte, aliae tabernas, fortasse ad emendas gemas, Regia (olim Basilica seu locus Pristini ub Reges faciebant iudicia), domus Vestalium Vestaeque templum videbantur.

Post tergum denique Rostrorum quae pulpitum erant duobus circiter cubitis multitudinem superans, templa deae Concórdia et Saturni collocabantur, quarum Pompeius ita scalas militibus implerat ut aer metalicum gravidiusque videretur.

Cícero autem solus pro Milone, sese nolente defendi, debebat loqui.

 

 

Tempus enim defensionis advenit. Totam multitudinem silentium opprimebat cum Cícero Rostra ascendens pro Milone protulit non hanc quidem tam cognitam atque lectam orationem sed quidquid circunstantiae eum loqui permittebant.

Milo itaque triginta octo sententiis, tredecim autem opponentibus, damnatus est.

 

 

 

 

 

A voz vencida pela violência
Tradução de Paulo Antônio Pereira
O Fórum Romano encontrava-se repleto por uma turba agitada e rumorosa, por ocasião do julgamento do homicídio que tivera Tito Anio Milão como mandante.Naquele tempo o clima estava agitado na Urbe (em Roma), a todo tempo perturbado pelos partidários de Clódio, a vítima, pois tinham intenção de se vingarem do assassinato de seu líder, perpetrado a mando de Milão, em plena Via Ápia.

A multidão tornara-se inóspita e agressiva na hora do julgamento, quando Cícero subiu os degraus da Rostra (tribuna), para defender Milão.

 O resultado daquele julgamento dependia assim de três coisas: da própria vítima, que, desejoso de exercer sozinho uma ditadura sobre Roma, havia ameaçado de morte a Milão, forte partidário da república; dos clodianos ali presentes, cheios de ódio e fortemente armados; da amizade que Milão mantinha com Cícero, chamado a defendê-lo do perigo de Clódio, que ameaçava expulsar Milão de Roma com toda a família.

Já no tempo de Cícero o Fórum Romano não era uma praça pequena, com 75 metros de comprimento e 25 de largura, cercada de edifícios de templos e lojas, de forma que da Rostra, Cícero podia ver à sua esquerda a Basílica Emiliana, a Cúria Senatorial e o cárcere Mamertino. À direita, várias lojas de câmbio e o templo de Cástor e Pólux.

Por detrás da multidão que se apertava junto ao Orador podia-se ver, à sua direita, no lado oriental da praça, várias lojas (talvez de negociantes de pedras preciosas) e o edifício da Regia (antigo palácio onde os velhos reis faziam justiça). Também eram vistos o Templo de Vesta e a casa das vestais.

Por detrás da Rostra (um púlpito com cerca de metro e meio de altura), ficavam os templos da deusa Concórdia e o dos gêmeos Cástor e Polux, cuja escadaria Pompeu enchera de soldados, de tal forma que o ar parecia metálico e pesado.

Sozinho diante de todos, Cícero devia falar a favor de um Milão que sequer estava interessado em defender-se.

Chegou a hora do advogado de defesa. Um silêncio perpassava toda a multidão, quando Cícero subiu à Rostra para pronunciar uma oração que nada tinha a ver com o texto que hoje conhecemos como Pro Milonem, mas apenas aquilo que as circunstâncias lhe permitiam.

Foi assim que, no final, Milão foi condenado por trinta e oito votos a treze. (E Cícero perdeu a causa).

 

 

 

 

 

 

Da Revista Classicum – Facultais Philosophicae B.M.V. Mediatricis – Cursus Humanoram Litterarum – Na. XI – Fasc.5– Nov. 1960 – pgs. 108-109.

Rua Barcelos Domingos

por Paulo Antônio Pereira

Campo Grande, Rio de Janeiro, 1951.

Estou querendo voltar a ser menino. Parar na porta lá de casa e ver chegar os ônibus da Agronomia: desciam sem freio, escapamento aberto, cheios de marra e de gente. Era ônibus grátis. Do governo.
Paravam 3, 5, 10, bem no outro lado da rua às 6 horas da tarde, quando começava a escurecer.
E o movimento da loja de meu pai voltava a ferver.
Eu, criança, sem nenhum compromisso com aquilo, senão contemplar e ouvir o redemoinhar de gente e o barulho dos carros que lotava a calçada do lado de lá, eu me sentia dono de todo aquele movimento semicansado de fim de viagem, olhando de fora, como num espetáculo de cinema.
Era bom correr por entre os fregueses, que compravam fumo de rolo, papel de carta, partituras de músicas, vidrilho, lápis e livros. Era a “Casa Nova” (velhíssima!) que vendia de tudo, bem ao lado dos Correios e Telégrafos.
Depois, em vôo rasante, voltava para dentro, com o cuidado de não tropeçar no degrau alto, muito alto da entrada estreita que ficava entre os fundos da loja e sala de visitas.
Passava à toda por Delma, que preparava o jantar. E ia rever meu último álbum de figurinhas, o futebol de botão, ou mesmo abrir o armário para executar no violino pequeno, com voz de gata parida, valsas, minuetos, marchas, tudo antologia da primeira posição.
À noite, lá pelas oito, as portas de aço da loja eram cerradas. Gostava de me agarrar no gancho e fazê-las descer, apenas com a força do peso do corpo e travar com dois trincos.
Não. A da esquerda, não. A um palmo do chão, deixava entrever uma tira de luz,
projetada pelo poste do lampião da Light que ficava em frente. Era ali que Chamim, meu gato, adorava sentar-se, gato okesfinge atenta e calma. Como era solene aquele gato!
De vez em quando, passava o luxo de um carro ou ônibus atrasado. E tudo voltava ao silêncio ritual, Chamim esperando atento o próximo ruído.
Lá na esquina, no Café Brasil, o último a apagar as luzes, havia um mapa do Brasil, afresco medíocre, bem colorido, ainda registrando os velhos territórios que hoje são Estados. Foi lá que o José ficou horas e horas esperando pela ambulância do exército, as pernas inchadas, porque tinha pulado o muro do quartel só para ver a Ângela. Caiu de mau jeito, e tiveram que cortar o bat-boot, para tirar os pés dele lá de dentro.
A loja, toda escura, era um mundo imaginário que me separava da noite lá fora. Transição necessária para entrar em casa, um túnel, que ia da réstia de luz da porta de aço até o retângulo grande da entrada da sala, a loja sabia ficar no seu lugar: bastava escalar o degrau alto, e a escuridão deixava de existir, como se a gente estivesse abrindo os olhos de um sonho maroto.
Mas às vezes ficávamos debaixo da marquise da loja, brincando de tudo: eu sou pobre, pobre, pobre, de marré, marré de si! A coitadinha da Sílvia me deu tanta pena, quando ficou sozinha e gripada, dizendo que era viúva e que queria uma de vossas filhas! Foi um alívio para mim, que chorava só de ouvir cantar Noite Feliz, ver Sílvia por fim de braços dados com as filhas que conquistara, de tanto andar para frente e para trás, clamando sua solidão.
Foi também ótimo um dia ver o Papai Noel de papelão, lá do outro lado, na entrada de um mercadinho. A proximidade do Natal, cheirando a abacaxi, naquela primeira semana de dezembro, me deixou doidinho pela ceia do dia 25, onde papai insistia cantar, com voz trêmula mas fina e afinada, estimulada por Áurea. A gente se sentia feliz, solto, quente e seguro, apesar do verão.
Aquilo tudo parecia eterno: papai, na cabeceira, quebrando nozes e mexendo comigo; mamãe falando do presépio de papel, que tinha recortado da revista Tico-Tico. Áurea, a meu lado, zoando como sempre, pegando no pé de todo mundo, até do papai. Era a única a quem era permitido contar piada de português na sua frente. Ao lado dela estava Inês. Zita e Ângela ficavam do outro lado da mesa, e finalmente, na outra cabeceira, a figura miúda de Sílvia, a ximbica, tão miudinha como mamãe, que sentava à minha frente, à direita de papai.
Puxa, como tudo aquilo era maravilhoso! A noite não ia acabar nunca, mesmo porque, no dia seguinte Áurea ia acordar todo mundo, para ver o que Papai Noel tinha trazido para cada um de nós.
Era festa!

O que é que o que é?

(Drama estudantil moderno)

 por Paulo Antônio Pereira

– Ô Geraldo, me diga depressa: o que é “que” o que é?
-Ih!… Já vem você com suas adivinhações. Deixe eu acabar de ler o meu “Grande Sertão – Veredas”, rapaz.
-Mas Geraldo, você, lendo romance na hora da prova! Ela já vai começar, Geraldo, me diga logo as funções do “que”: só isso! Não deu tempo de estudar em casa e o Zé me disse agora, quando eu cheguei, que isso cai, Geraldo. Vai: me dê uma mãozinha.
-Ora, então porque não disse logo? (Aprumando-se) Bem, o “que” é a palavra mais social da língua portuguesa: pertence a quase todas as classes gramaticais. Já dizia Rui Barbosa…
– Ô Geraldo, quer fazer o favor de não embromar? Você abusa da ignorância da gente! Entre logo no assunto, “seu”!
– Bem, deixe-me coordenar os pensamentos.
-Como é: você sabe ou não sabe?
– Eis a síntese: o “que” pode ser substantivo. Aliás, todas as palavras, como você deve saber, podem pertencer a esta classe (pela nomenclatura antiga chamava-se categoria).
– (Impaciente) Ih!… Dê logo um exemplo! E não venha com esse negócio de Guimarães Rosa pra cima de mim, não. Eu quero é exemplo de língua portuguesa no duro!
– Sandeu! Não atribua apodos a quem não conhece! Mas em homenagem à sua subnutrida mentalidade, dê-me o jornal. É o “Penúltima Hora”? Talvez ache algo de bom nele. Hum…(remói alguma coisa, que parece ser o pensamento comprimido em abreviaturas). Ah! Veja: “…o presidente, entrevistado pelos repórteres sobre o futuro Ministério, tinha um “quê” de dúvida em suas respostas”. Viu? “Que” é substantivo.
– Mas você vai pegar logo um artigo de fundo da Marieta Anastásia, Geraldo, – que mau gosto!
-Viu? “Que” pode ser também adjetivo indefinido; você disse “que mau gosto”.
-Estou honrado por ter me escolhido como protótipo da língua. Obrigado! (Incisivo:) Toca!
– Bem…Cá está! “Que poderá fazer um governo com tal inflação? Mas eu, quando souber, blá, blá, blá…”
– Chega de política! Este “que” é pronome indefinido.adolescente
– Ótimo. Você veleja já, por próprios panos, em mar alto; gostei!
– Horrível a metáfora. Mas o cacófato é gostoso: vamos lá na carrocinha tomar um “Kibon”. (Foram-voltaram)
– Voltemos à sua particulazinha. Ele pode ser ainda: pronome relativo, advérbio, preposição, conjunção e interjeição.
– Quê!!!
– Ótimo! Você já exemplificou a interjeição exclamativa. Como pronome relativo é bastante empregado com a função de sujeito. Veja esta legenda: “Cambraia que, apesar de contundido no jogo passado pelo petardo de Citrângulo, jogará amanhã contra o América”.
– Puxa, mas que jogão! A sarrafada foi legal…
– “Uma revelação, o rapaz que Solich trouxe de Minas”… Qual é a categoria?
– Do rapaz? Era do juvenil.
– Não anódino! Da partícula!
– Ah!… Ora, mas você tem cada uma… Aqui é pronome relativo, você já não disse?
– Sim, mas que função exerce no conjunto?
– (Irritado) Zagueiro esquerdo!
– Oh! Filho de Minos! O “que” é objeto direto!!!
– Bem, mas você mistura tanto as coisas…
– Ponhamos um termo a tanto quiproquó! Como objeto indireto, regido por preposição, encontramos o “que” neste anúncio de uma companhia de seguros: “A que perigo não se expõe você pela vida afora”. Entendeu?
– Entendi…entendi que o maior perigo é receber explicações de gramática e sintaxe de você. Puxa!
“Que grande estafermo és!”– não estou xingando; não faria o crime de mudar o seu tratamento de você para tu: isso é apenas exemplo de “que” usado como advérbio de quantidade.
– Inda bem…
– Sabia? “Que” pode ser também preposição. Descobri isso lendo uma gramática noutro dia: Nesta frase – “Há pouco que fazer hoje, Otelo, dizia o estalajadeiro” – “para” está substituído pela nossa partícula. Aliás, ela pode aparecer também como simples elemento decorativo ou expletivo; é o caso deste indigente aqui da 3ª página: “desde a manhã “que” não comera nada”.
– Você ainda não falou da conjunção: não é o principal?
– Deixei no fundo do caldo o mais gostoso. Há dez tipos de conjunção “que” dos quais ajunto um, inventado por mim: a optativa – “Que sonhes comigo e não caias da cama”.
– Deixe de elocubrações de citaredo e venha à gramática.
– Conjunção integrante – com os verbos dizer, esperar e muitos outros. São principalmente esta construção e a de pronome relativo que nos fazem repetir tanto a partícula, deixando a frase cheia de cacarejos: “que”, “que”, “que”…
– Na verdade, é horrível! “Fulano me disse que você disse que ele disse que…”
– Olha aqui no seu jornal um “que” explicando uma causa: “Pode deixar, que eu me vingo – foi a ameaça do delinquente”.
– Mas, ô Geraldo, acaba logo com isso, senão quem acaba delinquente sou eu.
– “Que” concessivo: “Qualquer que seja a razão da sua malandragem…”
– Eu quero é lição de português e não de moral! Tá bom, continue.
– “Correu tanto que morreu” é o exemplo mais batido do “que” numa correlação. Há um emprego mais raro para o “que”: é o de conjunção temporal: “Acabado que foi o banquete, todos se retiraram”. Não tem um perfume lusitano?
– E “que” final? Não conheço.
– Não é raro; “Francisco telefonou-me que fosse à casa dele” (para que fosse…) Mas agora sou eu quem está com pressa. “Que” pode ser mera conjunção aditiva coordenativa. “Estude que você aprenderá bem este ponto.
– (Zangado) Mas não tive tempo!
– Não, eu dei apenas um exemplo! Bastante europeu é o “que” adversativo, tive que decorar uma frase (com pronúncia “do reino”): “Em janeiro, mete obreiro de meado em diante que não antes”.
– Puxa, você não diz nada que não seja confuso!
– Viu? Você deu um exemplo de uso condicional do “que”: que não seja confuso.
– Será que eu estou aprendendo português por osmose? (Bate o sinal.)
– Já está na hora. Té logo. Boa sorte no exame.
– Pra você também. Muito obrigado, hein! (se afastam). Ei, ô Geraldo! Está faltando um emprego do “que”: eu só contei nove; venha cá!
– (De longe) Tem razão. É substituindo “como” numa correlação. “A honra, como o vidro, é igualmente nítida que frágil”- Bernardes.
– Meu Deus! Ainda bem que consegui guardar alguma coisa! Mas por que é que foram inventar esta bendita palavra? Por que?! Por que?

(Pano rápido)