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Balada do coração (melodia: Greenfields)

letra/tradução livre de Paulo Antônio Pereira

No teu segredo feito de luz
No teu segredo mora teu amor
No teu sorriso cintilam as estrelas
Todas as coisas anseiam teu calor
Mesmo na noite palpitas, Coração.

De teu mistério quis comungar
E teu sorriso eu quis repartir
E nosso encontro em meio à multidão
Mudou a noite em luz, perto de mim
Tu aceitaste o meu sim, Coração.

E minhas mãos, que usaste como altar
Recebem teu corpo, são taças de luz.

E hoje, sorrindo, espalho amor
Canto às estrelas mistérios que aprendi
Trago comigo as lágrimas do céu
Nelas se espelha teu rosto que verei,
Pois em meu peito habitas, Coração.

Revista “Entre Nós”

Entre Nós foi uma revista sobre espiritualidade criada em 1962 por jesuítas estudantes de filosofia. Os textos que seguem foram publicados como folha de rosto das edições 1 e 2, respectivamente.

Folha de rosto n°1
Nova Friburgo, setembro de 1962 (texto de abertura)

Capa do número 1 de "Entre Nós"
Capa do número 1 de “Entre Nós”

Por Paulo Antônio Pereira

Entre nós
entre nossos mundos
entre o meu sim e o teu
vai uma Identidade
um Princípio
uma Luz.

Entre nós
estarão
nosso aperto de mão
o teu apoio.

E nós recolheremos
cantando
Aquilo que nosso espírito ceifou
o Pedaço de eternidade
que cada um joeirou
da poeira de seu Tempo.

Soletaremos juntos
a Palavra
que se fez carne
e armou
entre nós
a tenda de sua vida.

Folha de rosto n°2
Nova Friburgo, dezembro de 1962 (texto de abertura)

cantemos o hino dos que estão juntos
no sorriso de Ser
uníssona, única:
nossa voz será uma fonte de água viva

cantemos a nossa descoberta
a limpidez do encontro
o silêncio da Luz:
nossa voz será forte como o amor brilhante como a dor

cantemos
a Verdade da busca
a Alegria da luta
a Certeza da espera
na comunhão de Ser do Deus-Agape

Poema do livro ‘Capital da Dor’ (1926)

por Paul Eluard

Natacha - Alphaville
Natacha – Alphaville

Sua voz, seus olhos,
Suas mãos, seus lábios.
Nosso silêncio, nossas palavras.
A luz que vai embora, a luz que volta.
Um único sorriso entre nós.
Por necessidade de saber,
Vi a noite criar o dia,
Sem que mudássemos de aparência.
Oh, bem-amado de todos,
E bem-amado de um só!
Em silêncio, sua boca prometeu ser feliz.
Cada vez mais longe, diz o ódio.
Cada vez mais perto, diz o amor.
Uma carícia leva-nos da nossa infância
Cada vez que vejo a forma humana
Como um diálogo de amantes.
O coração tem uma única boca.
Tudo por acaso.
Todas as palavras ditas inesperadamente.
Os sentimentos à deriva.
Os homens vagueiam pela cidade.
Um olhar, uma palavra
Porque eu te amo
Tudo está em movimento
Basta avançar, para viver,
Seguir adiante em direção aqueles que você ama.
Fui em sua direção, sem parar na direção da luz
Se você sorrir, é para melhor me envolver
Os raios dos seus braços entreabriram a nevoa.

Citado no filme ‘Alphaville’

Espantalhos

por Paulo Antônio Pereira 

cantei-te as dores dos dias
chorei-te as dores da noite
padre-nosso ave-marias
e canções de ninar, luar, poesias.

gesticulei ao léu como a pedir socorro
e quando fui pensar que respondias
eras tu que socorro a mim pedias,
espantalhos postados frente a frente.

e mais me endureceu o peito feito a palha
e mais roto tremeu meu velho terno
e mais frios senti meus braços tensos,
quando notei que a ti quem assim agitava
não era a dor nem nada: era o vento.

 Espantalho

Cronos

Por José Fonseca Lara

potamô gar ouk’estin enbênai tó autó (Heráclito)
não se pode pisar com o mesmo pé no mesmo rio.

rio das horas que não para nunca
na correria do devir constante
irreversível fluxo que desliza
brando e suave, no mistério das épocas.
curso do nada, invisível torrente
itinerante lar do que emergindo balouça
nas águas do tornar-se como barco sem rota…
tempo!
arrasta-me a voragem de tuas vagas
impele-me a torrente de ter curso!
mas quem constroi, quem te dirige e ordena
sou eu, que assim contemplo as águas de teu rio.

 relogio-l-prata3

“Spira-espera” (CLAUDEL)

por Paulo Antônio Pereira

Norman Mclaren

ondas espumas e vento
murmura mar quente e calmo
nasce do medo a nascente
desabre a estrada segredo.
viver passado sem braços,
viver braços sem passado?
teu fundo cheio, teu lado
gemem, gemem os espaços.

entre nós muros de carne
sangue lento, quente medo
canção escolhida a dedo
flor-perfume desta tarde.

onde o mundo vira anseio
teu seio, mulher irmã
nós nos fundimos ao meio
no volteio da manhã.

Via gente

por Paulo Antônio Pereira 

no espaço do teu segredo
aprendo a sonhar de dentro
espero, componho, invento,
a viagem: vento e medo.

você, dois braços abertos
você corrida prá mim
andorinha negra e branca
canção de flor no jardim.

você veio, muda e olhos
girassol atento e quente
onda salgada de vida
suave, suavemente.

esperar –eis meu mistério
renascer em campo certo
ouvir você bem de perto
cantigas de meu saltério.

monge, longe, sem matinas
cantigas de antigamente
renasço relva tranquila
Suave, suavemente.

que tempo que espaço e medo
se intromete por nós dois?
espero e cuido a teu lado
a data? Eu ponho depois.

hoje nos vemos e cremos
amanhã sofrer incerto
tarde-cedo, longe-perto
que importa, se nós vivemos?

andorinha-voando