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AUGUSTA 65 (em sete quadros)

Peça de teatro que retrata um grupo de jovens, discutindo o relacionamento com a família e tentando encontrar sua identidade no mundo. O pano de fundo é o ambiente de rebeldia dos anos 60 em São Paulo, época em que a beatlemania chegou ao Brasil. 

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AUGUSTA 65 (em sete quadros)

O cenário é esquemático, com poucos objetos. Não tem cortinas para abrir e fechar.Ele é trocado ao vivo pelo maquinista, diante dos espectadores, entre um quadro e outro. A música de cena, que se repete em todas estas mudanças, como também no início e no final, é Help!, dos Beatles.

1° Quadro: No clube.
Ouve-se Help! A música vai sumindo enquanto a luz se acende. Sobre o telão de fundo vemos um letreiro grande: Augusta 65. Encostados na parede estão um pneu velho e, pregadas, há algumas flâmulas e placas de carro e de nome de rua. Em cena, Vítor, de pé, fala para Jorge, que está num banco e para Jaques, sentado no chão, enquanto Nagib ouve atento, meio agachado. Todos são adolescentes, em seus quinze, dezesseis anos.

VÍTOR: Então vamos. (Levanta-se).
JORGE: (desanimado) Vamos.
VÍTOR: Tudo combinado.
JAQUES: (mais desanimado ainda) Tudo.
VÍTOR: Mas afinal, vocês topam ou não topam?
JORGE: Claro! Já disse!
VÍTOR: Turcão, você vai?
NAGIB: Vou.
VÍTOR: Vai nada! A gente arranja uma parada como essa e vocês não topam!
JORGE: Quem foi que disse que a gente não topa? Da última vez nós estávamos firmes, lá no Morumbi. Firmes. Virei um tapa num, que chegou até a voar dente: debulhei a cara dele por tua causa. Você ainda pergunta se eu topo?
VÍTOR: Não tou falando com você: to falando com eles.
NAGIB: Eu tenho prova amanhã.
VÍTOR: Mas nós temos prova hoje! Hoje nós temos que provar quem é homem.
JAQUES: Quem é homem, quem é homem! Nós vamos ao cinema hoje. Nós tamos lá às 10. Mas você também não vai bancar o cheiroso de arranjar briga prá nós e você sair com o cartaz sozinho, diante de tua garota, não senhor. Chega dessa história. Eu já estou cheio! Nós fizemos este clube prá poder roubar placa de nome de rua, prá jogar crepe, prá fugir da RUDI, prá pegar garota, prá trocar revistinha e outros troços. Não foi prá te glorificar, não, meu chapa! Se fosse prá isso, eu ficava adorando o meu velho lá em casa.
VÍTOR: Ah! É isso? Então eu quero ver vocês sem mim em Guarujá semana eu vem. (Sai.)
JORGE: Puxa, Jaques, o Vítor é legal. Tem direito de dar suas puxadinhas…
JAQUES: Legal pras gatas dele. A mim ele não engana.
JORGE: E que é que nós vamos fazer sem ele?
JAQUES: Ninguém precisa de um cara que só pensa nele mesmo. Nós vamos viver nossa vida. (Para Nagib) Turco, vam’embora! (Levanta-se).
JORGE: Puxa, e o clube?
JAQUES: Ora, o clube… (Sai).
NAGIB (antes de sair, pra Jorge:) Às dez, no cinema.
JORGE: Mas… (Nagib sai. Jorge fica olhando para a porta. De repente, toma uma decisão: começa a arrancar as flâmulas da parede.) Vou levar minhas coisas, então. (ESCURO: ouve-se Help).
FIM DO 1° QUADRO. A luz se acende. Maquinista entra no palco e muda o cenário rapidamente diante do público. Escuro. Ouve-se Help! de novo.

2°quadro: Casa de Nagib (Turcão). Nagib conversa com seu pai.
Luz se acende. Mesa, com fruteira em cima dela.
Pai está sentado numa cadeira, lendo jornal. Quando Nagib entra, ele para de ler e olha para ele.

NAGIB: Bênção.
PAI: (tem forte sotaque sírio:) É tarde. Já jantou?
NAGIB: Tava no clube.
PAI: Clube! Mas já não te disse para não andar com esses vagabundos?
NAGIB: E com quem vou andar, com o senhor? O senhor dança tuíste, gosta dos Beatles? Não dança e não gosta. Nem pelo Coríntians o senhor torce! Só pensa na sua lojinha.
PAI: Tuíste! Futebol! Você já tá na idade de pensar em coisa séria. Olha, meu filho, você é a única coisa que eu tenho na vida. Bem, a única, não, tem a lojinha… (Hoje a féria foi boa.) Dona Zenaide pagou a conta do mês passado. Comprei dez dúzias de meias para homem a preço baratinho.. Já posso dar entrada num terreno prá nossa casa. Var ser uma maravilha! Dois andares, a loja embaixo. Você vai ter lugar para fazer reunião com seus colegas. Quer dizer…enquanto a agente não comprar nosso carrinho. (Lembra-se de repente:) Mas você não pode andar com essa gente! Ano que vem vou te mudar de colégio.
NAGIB: Mas papai, o senhor não vê que eles são meus amigos!
PAI: Gente ruim! Tudo filhinho de papai. Eles têm direito de fazer besteira porque são filhos do Doutro Beltrano ou do Doutor Sicrano. Você não. Você é filho do Bechara, da lojinha ali da esquina! (Comovido:) É! O da lojinha, sem. Mas gente honesta, gente do trabalho. (Com raiva:) Você é bom demais para andar com esses parasitas da sociedade!
NAGIB: Mas, papai, seu eu sou o único bom, entre eles, seu também o único que pode ajudar a eles. Não vê que os pais não dão a mínima bola pros coitados?
PAI: Coitados! Coitados!Você pensa que pode melhorar alguém? Olha: (vai à mesa, mostra a fruteira) ontem essas bananas já estavam quase apodrecendo. Só tinha uma boa. Sabe o que aconteceu? Você vai dizer que a banana boa fez as outras ficarem boas de novo? Não! Ela hoje apodreceu também. E é isso que vai acontecer com você, se você não deixar logo,logo, este bando de celerados.
NAGIB: Mas papai, nós só queremos nos divertir um pouco.
PAI: Divertir? Passar feito doido num carro a cem por hora, fazendo roleta paulista, podendo matar uns quatro ou cinco, isso é diversão, é gozado? Roubar placa de rua, atrapalhando o trabalho dos carteiros, isso é gozado? Sem-vergonhice, isto sim; falta de trabalho; molecagem.
NAGIB: O senhor está exagerando. O senhor fala, mas o que é que o senhor faz por mim: trabalha? Prá mim não basta, eu queria um pai legal que conhecesse os meus desejos, os meus projetos. Um pai bacana, que não me desse só dinheiro, mas que me entendesse mais.
PAI: (levanta-se segura-o pelos ombros:) Meu filho, se eu vivo tanto prá loja é porque eu quero que você nunca mais, nunca mais, quando for grande e formado, precise pendurar e dependurar cabide cem vezes por dia. Atender freguês num balcão.
NAGIB: Papai, esse negócio de pai trabalhar pro filho, se matar para ele er futuro, isso já está muito manjado, papai. Futuro não existe. O que existe é agora, o presente. Não me adianta nada o senhor preparar um futuro prá mim, se o senhor ao me ajuda a quebrar os galhos agora, de hoje. Aliás, é até bem fácil esse negócio de se matar de trabalhar: assim o senhor fica dispensado de pensas nas minhas dificuldades, de me ensinar a viver.
PAI: Mas meu filho, não adianta eu te dar conselho: o que interessa é que te dê exemplo.
NAGIB: Exemplo de quê? De trabalho? Não é esse o meu problema, aqui e agora. Tenho outros muito diferentes dele. Não é vendo o senhor abrir a lojinha às oito da manhã e fechar às oito da noite que eu vou resolver tudo e ficar contente.
PAI: Mas não vejo que é que eu te posso dar de melhor: exemplo de trabalho, seriedade, honestidade…
NAGIB: O senhor acha que é só olhando para a imagem que a gente vira santo?
PAI: Mas você podia fazer uma forcinha para imitar meu trabalho. Suas notas este mês…
NAGIB: Pai, eu quero um motivo para estudar, um motivo para ser sério. Já estou cansado de ver o senhor nessa vidinha mixuruca, sem fazer nada de espetacular. Eu acho que ser sério assim não vale a pena. É muito pouco para um homem.
PAI: Meu Deus! Vê como a turma te enfiou ideia ruim na cabeça?
NAGIB: Idéia ruim, não, pai: é que nós temos galhos que o senhor nunca teve. Nós vemos coisas que o senhor nunca viu.
PAI: Mas para eu vocês vão se meter em encrencas? Para que a gente tem que ver certas coisas?
NAGIB: É a vida, pai. Hoje a gente sai na rua… e na rua se vende coisas bem diferentes das que o senhor vende em sua lojinha.
PAI: Eu vim sozinho para o Brasil em 1950. Tinha quinze anos nas costas e dois mil réis no bolso. Você vai querer me ensinar o que é a vida?
NAGIB: Não, eu só queria que o senhor entendesse um pouco o que é a minha vida, a vida dos meus colegas, mais nada. Hoje nós também temos quinze anos nas costas e dois “enforcados” no bolso. Mas eu aposto que senhor não enfrentou a metade dos galhos que a gente enfrenta.
PAI: Galhos! Bacana! “Enforcado”! Eu não entendo vocês! o que vocês precisam é de uns tapas firmes, isto sim! Cambada de vagabundos! Onde já se viu não fazer nada o dia inteiro e depois vir-me dizer com a cara mais limpa desse mundo que “vivem cheios de problemas”? Por acaso já passou fome, como eu? Sabe o que é isso? Eu não entendo, não entendo mais nada!
NAGIB: Se não entende, por que é que me botou no mundo?
PAI (chocado e comovido:) Ah, desgraçado! É assim que você agradece tudo o que seu pai faz por você? (Pausa)
NAGIB: Desculpe, papai. Eu gosto do senhor. (Aproxima-se e toca-lhe no ombro). Gosto por que sei que o senhor gosta de mim, que o senhor é capaz de fazer tudo por mim. E sei que o senhor tem de se virar doze horas no balcão por dia prá poder pagar meu colégio, que é caro. Eu me lembro até hoje daquele aniversário, quando eu fiz oito anos, em que o senhor deixou de comprar um remédio seu, só para poder me dar uma bola de presente.
PAI: (comovido:) Não foi nada: era só um resfriadozinho. Você tinha conseguido o primeiro lugar na escola, e era o terceiro ano seguido que eu não te dava presente nenhum.
Nagib: (afasta-se um pouco) Eu sei que o senhor gosta de mim. Mas não vê que não adianta nada gostar sem ajudar?
PAI: Mas que é que eu posso fazer? Diga, que eu faço.
NAGIB: Eu que sei? O senhor é que é o pai. Eu só tenho os problemas.
FIM DO 2° QUADRO. Escuro. Ouve-se Help. A luz se acende. Maquinista entra no palco e muda o cenário rapidamente diante do público. A luz se apaga. Ouve-se Help!

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