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A história de Jó

por Paulo Antonio Pereira

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Gustave Doré

Você conhece a história de Jó?
Jó nunca existiu. É simples personagem de um conto sapiencial de ficção. Mas a realidade de Jó é plausível, e a resposta que ele recebe de Deus, conclusiva.

Conta o Livro de Jó que certa vez Deus estava cercado por toda a sua corte (incluindo o diabo), e estava muito contente, porque – dizia – nunca tinha visto um servo tão bom como Jó, um rico e próspero pai de família, justo cumpridor da Lei do Altíssimo.
Foi aí que o demônio disse: “Ah, é? Ele é assim porque você o encheu de riqueza. Tire tudo dele, para você ver só, como vai bendizê-lo!” Deus aceitou o desafio: “Tá bem, tome-lhe tudo, mas lhe preserve a vida.”

Daí para frente a existência de Jó virou um inferno: perdeu seu gado, morreram seus filhos, pegou lepra, foi expulso da cidade. Até a mulher o abandonou. Naquela época, um homem excluído de seu grupo passava a ser considerado como um marginal, indigno de ser respeitado por seu povo, um impuro, literalmente um intocável. Enfim, toda a miséria e dor possíveis foram jogadas sobre o pobre Jó!

E como se isto não bastasse, três velhos amigos apareceram perto do entulho de lixo sobre o qual morava o infeliz e começaram a obrigá-lo a pedir perdão a Deus, por causa dos pecados que ele teria cometido. Sim, porque só podiam ser os erros de Jó a causa de tanto sofrimento!

O tempo todo Jó defende sua inocência. Ele chega apelar para Deus com palavras ousadas e comoventes: “Eu te amei, e tu me traíste. Sinto falta do tempo em que éramos amigos íntimos.”

Mas os três “sábios” não acreditam de jeito nenhum na inocência do pobre… “Você deve ter algum pecado escondido que não quer confessar!” – dizem eles. “Se você fosse mesmo justo, não estaria sofrendo tanto assim.”

Depois de dezenas de capítulos de discussão, Deus toma a palavra e, sem deixar de defender e atestar a fidelidade de Jó, desafia-o a ser mais sábio que o Criador. Com argumentos vivíssimos, demonstra que o ser humano é muito pequenino, que sua inteligência não consegue explicar todos os mistérios do mundo, muito menos os maiores: o sofrimento e a morte.

O livro termina otimista. Depois de nosso herói reconhecer sua pequeneza diante do Criador e Mantenedor de todas as coisas, Deus resolve tudo a favor de Jó: dá uma tremenda bronca nos “amigos“ (da onça) e devolve a seu servo fiel tudo o que antes ele tivera, em riqueza e prestígio.

De fato, o texto não consegue explicar o sofrimento e a dor: apenas diz que há um plano no coração de Deus reservado para cada um de nós, mas que não podemos prever nem mesmo ver com clareza. Só a fé pode nos fazer acreditar que a mão de Deus sempre nos está protegendo, mesmo nos piores momentos: no sofrimento e na morte. Basta que procuremos mantermo-nos fiéis à caridade, ao amor de si e do outro. Mas tudo continua um grande segredo…

Certamente o desafio do demônio levanta a questão maior sobre o tipo de relação que podemos manter com Deus (e, portanto, com nosso irmão): relação de interesse egoísta ou de amor desinteressado, confiante e autêntico? Isso me levou a escrever o texto abaixo.

Aqui me tens, teu guarda do segredo
fidelíssima chave que abre e fecha.

Giro e regiro, tonto, sobre mim mesmo,
mergulho até o pescoço
no poço de teu mistério,
sirvo só para abrir (para fechar!)
este teu velho cofre impossível
cujo conteúdo me é desconhecido.

Que guardas aí dentro da vida com tanto cuidado?
Por que me prendes a este jogo insolúvel?
Eu não podia ser pássaro,
para cantar, fazer ninho, adormecer sorrindo?
Não podia ser peixe, mudo e sério,
mas livre e lépido,
sempre de olhos bem abertos, puro e brilhante?

Ih! mas eu sou muito complicado
em minhas mil reviravoltas !

Senhor, afinal não podíamos ser mais simples?
Sem expectativas ou frustrações
sem prólogos ou epílogos:
a fonte, e mais nada,
o bosque, sem veredas?
Prá quê medo
e tédio
e dor,
barulho e agonia:
prá quê mistério?

Me desculpa:
chave não foi feita para perguntar.
Só devo alegrar-me por ser tua chave,
do teu mistério,
porque sempre estarei entre teus dedos,
girado sabiamente por tua mão,
por esta doce mão
que inventou a carícia .