Subaquática

por Paulo Antonio Pereira

Doía ouvir, doía dizer, os ouvidos sangravam
qualquer som, doce ou ácido, lixava os tímpanos por dentro
a garganta, seca, ardia cada vez mais,
à medida que as palavras tropeçavam na dubiedade dos sentidos,
deixando exposta uma camada negra de mentira.

Os olhos, vazados,
qualquer luz queimava-os como tições:
e, mais que tudo, o intenso brilho da imagem dela.

Tudo estava lá fora, denso, misto, graxo, vasto,
tudo fazia parte daquela dor gástrica, plúmbea, informe,
que boiava no peito, sem vômito e víscera.

Será isto a implosão do ser?
Será esta a sensação de um prédio velho que desmorona?
E para onde vão os cacos vivos das paredes nuas?
Continuam pulsando isolados?
O que virá depois da dor de ser sozinho?

Depois de se dobrar a derradeira esquina do último deserto,
depois de se destilar a última lágrima,
num holocausto, queimar a última vítima,
ferir de morte a última célula?

Que força deste mundo fez cessar o afago suave?
Por onde se escoou tanto carinho,
para que remotas regiões voaram os sons de violino e celo
que esta mão produzia?
Por que seu tato embotou,
porque tão rápido nasceram grossos calos nas fibras mais sensíveis?

subaquatica

As lindas flores subaquáticas vibram,
em seu amarelo alegre, ao passar do rio.
A pequena flor amarela foi sacrificada no altar dos teus cabelos.
Os dedos que ali a pousaram crispam-se, agora, mudos:
já não fazem mais nada
não dão a Deus
nem dão adeus a ninguém.

A história de Jó

por Paulo Antonio Pereira

Imagem
Gustave Doré

Você conhece a história de Jó?
Jó nunca existiu. É simples personagem de um conto sapiencial de ficção. Mas a realidade de Jó é plausível, e a resposta que ele recebe de Deus, conclusiva.

Conta o Livro de Jó que certa vez Deus estava cercado por toda a sua corte (incluindo o diabo), e estava muito contente, porque – dizia – nunca tinha visto um servo tão bom como Jó, um rico e próspero pai de família, justo cumpridor da Lei do Altíssimo.
Foi aí que o demônio disse: “Ah, é? Ele é assim porque você o encheu de riqueza. Tire tudo dele, para você ver só, como vai bendizê-lo!” Deus aceitou o desafio: “Tá bem, tome-lhe tudo, mas lhe preserve a vida.”

Daí para frente a existência de Jó virou um inferno: perdeu seu gado, morreram seus filhos, pegou lepra, foi expulso da cidade. Até a mulher o abandonou. Naquela época, um homem excluído de seu grupo passava a ser considerado como um marginal, indigno de ser respeitado por seu povo, um impuro, literalmente um intocável. Enfim, toda a miséria e dor possíveis foram jogadas sobre o pobre Jó!

E como se isto não bastasse, três velhos amigos apareceram perto do entulho de lixo sobre o qual morava o infeliz e começaram a obrigá-lo a pedir perdão a Deus, por causa dos pecados que ele teria cometido. Sim, porque só podiam ser os erros de Jó a causa de tanto sofrimento!

O tempo todo Jó defende sua inocência. Ele chega apelar para Deus com palavras ousadas e comoventes: “Eu te amei, e tu me traíste. Sinto falta do tempo em que éramos amigos íntimos.”

Mas os três “sábios” não acreditam de jeito nenhum na inocência do pobre… “Você deve ter algum pecado escondido que não quer confessar!” – dizem eles. “Se você fosse mesmo justo, não estaria sofrendo tanto assim.”

Depois de dezenas de capítulos de discussão, Deus toma a palavra e, sem deixar de defender e atestar a fidelidade de Jó, desafia-o a ser mais sábio que o Criador. Com argumentos vivíssimos, demonstra que o ser humano é muito pequenino, que sua inteligência não consegue explicar todos os mistérios do mundo, muito menos os maiores: o sofrimento e a morte.

O livro termina otimista. Depois de nosso herói reconhecer sua pequeneza diante do Criador e Mantenedor de todas as coisas, Deus resolve tudo a favor de Jó: dá uma tremenda bronca nos “amigos“ (da onça) e devolve a seu servo fiel tudo o que antes ele tivera, em riqueza e prestígio.

De fato, o texto não consegue explicar o sofrimento e a dor: apenas diz que há um plano no coração de Deus reservado para cada um de nós, mas que não podemos prever nem mesmo ver com clareza. Só a fé pode nos fazer acreditar que a mão de Deus sempre nos está protegendo, mesmo nos piores momentos: no sofrimento e na morte. Basta que procuremos mantermo-nos fiéis à caridade, ao amor de si e do outro. Mas tudo continua um grande segredo…

Certamente o desafio do demônio levanta a questão maior sobre o tipo de relação que podemos manter com Deus (e, portanto, com nosso irmão): relação de interesse egoísta ou de amor desinteressado, confiante e autêntico? Isso me levou a escrever o texto abaixo.

Aqui me tens, teu guarda do segredo
fidelíssima chave que abre e fecha.

Giro e regiro, tonto, sobre mim mesmo,
mergulho até o pescoço
no poço de teu mistério,
sirvo só para abrir (para fechar!)
este teu velho cofre impossível
cujo conteúdo me é desconhecido.

Que guardas aí dentro da vida com tanto cuidado?
Por que me prendes a este jogo insolúvel?
Eu não podia ser pássaro,
para cantar, fazer ninho, adormecer sorrindo?
Não podia ser peixe, mudo e sério,
mas livre e lépido,
sempre de olhos bem abertos, puro e brilhante?

Ih! mas eu sou muito complicado
em minhas mil reviravoltas !

Senhor, afinal não podíamos ser mais simples?
Sem expectativas ou frustrações
sem prólogos ou epílogos:
a fonte, e mais nada,
o bosque, sem veredas?
Prá quê medo
e tédio
e dor,
barulho e agonia:
prá quê mistério?

Me desculpa:
chave não foi feita para perguntar.
Só devo alegrar-me por ser tua chave,
do teu mistério,
porque sempre estarei entre teus dedos,
girado sabiamente por tua mão,
por esta doce mão
que inventou a carícia .

Arquitetos

por Paulo Antonio Pereira

telhado a teu lado
teu mundo teu fado
carinho pertinho
nervoso tremor

telhado alvejado
passeio das chuvas
anseio no seio
de gente abrigar

ladeiras de Ouro Preto

telhado cremoso
crestosa fuligem
as ondas das casas
as ondas dum mar

cidade silente
chapéus de andarilho
postados, ansiosos,
à luz do luar

telhado, teu lado
teu fundo, teu mundo
do só, do sozinho
do beijo-abraçar

telhado do velho
sereno mistério
que cai lá do céu
ardente, vistoso
retinho, sem medo
protege o silêncio
dos anos ao léu

ah! telha caída
ah! telha partida
desvão, vão e só

por que não nascemos
já dois, pandos, duplos
sem medo das chuvas
sem medo da luz ?

porque não vivemos
aos dois, lado a lado
telhado dobrado
qual ave a partir ?

se formos serenos
dois tetos, dois gestos
abertos inteiros
ao sol, ao luar
os olhos das gentes
os pássaros quentes
as chuvas, os ventos
irão nos beijar.

ah! telha caída
ah! telha partida
desvão, vão e só…