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VI VICTA VOX

por Paulo Antônio Pereira

 Milão e Clódio, senadores romanos riquíssimos, eram inimigos mortais. Clódio queria implantar uma ditadura em Roma. Milão era a favor da república. Juraram-se de morte mutuamente.

Milão armou uma emboscada para Clódio, antes que este o matasse. Foi acusado de homicídio e chamou para defendê-lo o famoso orador, advogado e também senador romano Marco Túlio Cícero (* 106 a.C, +43 a.C.).

O texto abaixo é uma espécie de reportagem, que tenta reproduzir o local (o Forum Romano) em que foi realizado o julgamento de Milão.

Como não podia apelar para o princípio da legímita defesa, pois Milão mandara matar Clódio com premeditação, e não durante um ato de agressão por parte do adversário, Cícero usa de um argumento singular: vi victa vis, isto é, o que tinha acontecido é que a violência (vis) tinha sido vencida (victa est) pela violência (vi). Por esta razão, seria justo que Milão matasse Clódio, já que este prometera matá-lo tão logo tivesse oportunidade. Isto diz o texto que possuímos atualmente.

Sabe-se, contudo, que a multidão não estava a favor de Milão, o que inibiu a palavra do Orador, cuja voz (vox) terminou vencida (victa) pela violência (vi).

 Vi victa vox
Texto original de Paulo Antônio Pereira 

 Si, cum magna comitia calarentur et congregarentur iudicia, Forum Romanum turba multa et rumorosa erat plenum, plenissimum atque refertissimum sane inventum erat, cum facinus Titi Anii Milonis iudicabatur.Tempus difficile erat in Urbe, quotidie clodianis turbata, quia omnia audebant um ducem suum a Milone occisum via in Apia ulcisci valerent.

Equidem valde inhospita erat multitudo in conspectu iudicium, cum e rostris Cícero vocem sustulit ut Milonem defenderet.

A tribus enim rebus iudicium illud pendebat: a Popeio, praeprimis dictaturam cupienti, cui damnatio Milonis, reipublicae semper propugnatoris, proderat; a clodianis vero iratis ac certissime armatis; ab amicitia denique Ciceronis erga Milonem, qui conatus erat ut Orator, et patria iussu Clodii pulsus domui e propinquis suis redderetur.

Iam Ciceronis temporibus, Forum Romanum non nimis magna erat platea: longa centum tantum passus et quinquagita lata, multis aedibus, templis tabernisque cincta, ita ut e Rostris Cícero ad sinistram videret Basilicam Aemilianam, Curiam Senatoriam atque Carcerem Mamertinum; ad dexteram vero, plures argentarias tabernas et Templum Castoris Pollucisque.

Post populum, coram Oratore, in orientali plaetae parte, aliae tabernas, fortasse ad emendas gemas, Regia (olim Basilica seu locus Pristini ub Reges faciebant iudicia), domus Vestalium Vestaeque templum videbantur.

Post tergum denique Rostrorum quae pulpitum erant duobus circiter cubitis multitudinem superans, templa deae Concórdia et Saturni collocabantur, quarum Pompeius ita scalas militibus implerat ut aer metalicum gravidiusque videretur.

Cícero autem solus pro Milone, sese nolente defendi, debebat loqui.

 

 

Tempus enim defensionis advenit. Totam multitudinem silentium opprimebat cum Cícero Rostra ascendens pro Milone protulit non hanc quidem tam cognitam atque lectam orationem sed quidquid circunstantiae eum loqui permittebant.

Milo itaque triginta octo sententiis, tredecim autem opponentibus, damnatus est.

 

 

 

 

 

A voz vencida pela violência
Tradução de Paulo Antônio Pereira
O Fórum Romano encontrava-se repleto por uma turba agitada e rumorosa, por ocasião do julgamento do homicídio que tivera Tito Anio Milão como mandante.Naquele tempo o clima estava agitado na Urbe (em Roma), a todo tempo perturbado pelos partidários de Clódio, a vítima, pois tinham intenção de se vingarem do assassinato de seu líder, perpetrado a mando de Milão, em plena Via Ápia.

A multidão tornara-se inóspita e agressiva na hora do julgamento, quando Cícero subiu os degraus da Rostra (tribuna), para defender Milão.

 O resultado daquele julgamento dependia assim de três coisas: da própria vítima, que, desejoso de exercer sozinho uma ditadura sobre Roma, havia ameaçado de morte a Milão, forte partidário da república; dos clodianos ali presentes, cheios de ódio e fortemente armados; da amizade que Milão mantinha com Cícero, chamado a defendê-lo do perigo de Clódio, que ameaçava expulsar Milão de Roma com toda a família.

Já no tempo de Cícero o Fórum Romano não era uma praça pequena, com 75 metros de comprimento e 25 de largura, cercada de edifícios de templos e lojas, de forma que da Rostra, Cícero podia ver à sua esquerda a Basílica Emiliana, a Cúria Senatorial e o cárcere Mamertino. À direita, várias lojas de câmbio e o templo de Cástor e Pólux.

Por detrás da multidão que se apertava junto ao Orador podia-se ver, à sua direita, no lado oriental da praça, várias lojas (talvez de negociantes de pedras preciosas) e o edifício da Regia (antigo palácio onde os velhos reis faziam justiça). Também eram vistos o Templo de Vesta e a casa das vestais.

Por detrás da Rostra (um púlpito com cerca de metro e meio de altura), ficavam os templos da deusa Concórdia e o dos gêmeos Cástor e Polux, cuja escadaria Pompeu enchera de soldados, de tal forma que o ar parecia metálico e pesado.

Sozinho diante de todos, Cícero devia falar a favor de um Milão que sequer estava interessado em defender-se.

Chegou a hora do advogado de defesa. Um silêncio perpassava toda a multidão, quando Cícero subiu à Rostra para pronunciar uma oração que nada tinha a ver com o texto que hoje conhecemos como Pro Milonem, mas apenas aquilo que as circunstâncias lhe permitiam.

Foi assim que, no final, Milão foi condenado por trinta e oito votos a treze. (E Cícero perdeu a causa).

 

 

 

 

 

 

Da Revista Classicum – Facultais Philosophicae B.M.V. Mediatricis – Cursus Humanoram Litterarum – Na. XI – Fasc.5– Nov. 1960 – pgs. 108-109.