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Palestra sobre linguagem literária e linguagem cinematográfica

1. PALAVRA-IMAGEM

Palavra é para o ouvido
Imagem é para os olhos
Uma imagem vale mais que 1000 palavras? É?
Então diga isto em imagem… (Millôr Fernandes)
O código da fala e da escrita é abstrato, composto por puros símbolos. É uma linguagem “analógica” e analítica (excetuada a poesia concretista).
A imagem é concreta exprime-se por uma linguagem “digital” e sintética.
Como transpor a idéia de um para outro código?
Como transpor a narrativa, oral ou descritiva, para o campo da imagem?
A palavra tem sua gramática própria que envolve fonética, morfologia e sintaxe.
Ela se flexiona quanto a gênero, número, grau. Também quanto a modo, tempo e pessoa, quando é verbo.
Pode ser dividia em várias classes: substantivo, artigo, etc. Pode ser usada unívoca, equívoca ou analogicamente.
A palavra pode ser submetida a um processo de sintaxe, estilo…

2. TEMPO DE PERCEPÇÃO
Nos processos comunicacionais onde predomina o espaço, quem determina o tempo de recepção é o receptor.
Nos processos comunicacionais onde predomina o tempo, quem determina o tempo de recepção é o emissor.
E a imagem?
É a presentificação do passado. (Sartre)
Às vezes é mais evocativa que a realidade que ela retrata.
Ela liberta as coisas do espaço-tempo diário e as introduz numa verdadeira dimensão de eternidade.

3. A LINGUAGEM DO CINEMA

O sinal próprio da expressão cinematográfica é a imagem em movimento projetada em uma tela para uma platéia.
Muitas vezes se pensa o cinema como narrativa ou interpretação de atores ou ainda, quando muito, como cenografia e paisagem.
De fato, cinema é imagem (sonora).
Daí seu charme. (Morin)

E a imagem do cinema?
– Ela é imagem do movimento
– É imagem em movimento
– É imagem movimento
Os elementos básicos da imagem cinematográfica são:
– Plano
– Composição
– Movimento
– Montagem
É possível fazer um paralelo entre o texto literário e o filme do ponto de vista de suas dimensões.
Um conto corresponderia a um curta-metragem.
Um romace corresponderia a um longa-metragem.
Diz Alfredo Bosi em O conto brasileiro contemporâneo:
“Se o romance é um trançado de eventos, o conto tende a cumprir-se na visada intensa de uma situação, real ou imaginária, para a qual convergem signos de pessoas e de ações e um discurso que as amarra.”
A invenção do contista se faz pelo achamento (invenire = achar, inventar) de uma situação que atraia, mediante um ou mais pontos de vista, espaço e tempo, personagens e trama.
O tema |do conto| já é, assim, uma determinação do assunto e, como tal, poda-o e recorta-o, fazendo com que rebrote de forma nova.
Cruzado por dentro o limiar do tema, é necessário conhecer o registro a que vai ser submetida a matéria;
se (1) realista documental ,
se (2) realista crítico,
se (3) intimista na esfera do eu (memorialista),
se (4) intimista na esfera do id (onírico, visionário, fantástico),
se (5) experimental no nível do trabalho lingüístico e, neste caso, centrífugo e, à primeira vista, atemático.
Diz Maria de Fátima Augusto em A Montagem Cinematográfica e a Lógica das Imagens:

Escolhemos alguns cineastas que, de acordo com a proposta deleuziana, representam com suas teorias e filmes a originalidade de cada escola de montagem. Analisamos:
(1) Griffith e a montagem orgânica do cinema americano;
(2)Eisenstein e Vertov, a montagem dialética da escola soviética;
(3) Epstein e Gance, a montagem impressionista do cinema francês do pré-guerra;
(4) Lang, Wiene e Murnau e a montagem expressionista do cinema alemão;
(5) a crise da imagem-ação. (…) Ocorre a substituição da imagem-movimento pela imagem-tempo.(…) As imagens não se encadeiam mais por cortes racionais mas se reencadeiam com base em cortes irracionais. (Cidadão Kane, Limite, Hirochima, mon amour, Grenaway, Antes da chuva).

paralelo

Filme realista documental com montagem orgânica.
Exemplo: ¨Cabra marcado para morrer¨.

Filme realista crítico, com montagem dialética.
Exemplo: “O dia em que Dorival encarou a guarda”. – ¨Encouraçado Potemkin¨, de S.M.Eisenstein

Filme intimista na esfera do eu, com montagem impressionista.
Exemplo: “Meus oito anos” – ¨Limite¨ (de Mário Peixoto)

Filme intimista na esfera do id, com montagem expressionista.
Exemplo: “Barbosa”

Filme experimental, com cortes “irracionais” (literatura por literatura, cinema pelo cinema; a montagem não se rege por uma narrativa).
Exemplo: ¨Chien Andalou¨, de Buñuel.

Exemplos: http://wp.me/p3pdxB-8k e http://wp.me/p3pdxB-8r