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Salto Sem Rede

por Paulo Antônio Pereira

Salto sem rede

como bela a  acrobata que salta ao trapézio:
entre ela e o mundo
apenas o fio fino e tímido ou a queda.
e ela vai e ela vem
e ela vai e ela vem.

que viril é o acrobata a vogar no trapézio.
por um triz prende a vida
ao balanço do tempo:
vai e vem
vem e vai
o acrobata gentil quase cai.

por que voas, mulher
porque queres espaço
maior que mil passos ?

por que lanças teus braços
aos braços fatais do acrobata?
ele é fraco
ele é risco sem fundo
ele baila por cima do mundo
ele vai, ele vem, ele vai.

por que voas, ligeiro acrobata,
para um colo mais frágil que o teu ?
por que salto mortal
se a vida
é assunto diário de Deus ?

por que ides os dois pendulando
deslizando pr’além do mistério
no limite do mal e do bem
corpo e tudo ao sabor do perigo
desligados do céu e do chão ?

vede as mãos destes dois que se encontram
palma a palma na hora precisa:
são dez dedos que agarram a vida,
latejante, nos punhos do outro.

que serás, acrobata, sem ela
quão tristonho será o trapézio,
sem um corpo a esperar-te no espaço
sem olhar a te dar contrapeso ?

mais valera se a corda partisse,
bem seria se o mundo sumisse,
se ao voltar, no revés de um impulso,
o trapézio tu visses vazio,
se ela fosse, e não mais te sorrisse.

mais valia saltar para o nada
se esta mão em tua mão não tivesses
se este rosto não visses de perto
se este beijo não fosse na boca.

acrobatas sem medo e sem rede
nos lançamos de encontro um ao outro:
se no enlace falharmos em queda,
inda assim bem valeu tanto sonho.